Desde a década de 1980, a China se tornou a fábrica do mundo. Seu crescimento econômico, impulsionado por baixos salários e compressão salarial, tirou centenas de milhões de cidadãos da pobreza, mas manteve os trabalhadores recebendo uma fatia cada vez menor do valor que produzem – um resultado que vai na contramão das ideias de Karl Marx, cujos escritos, como ‘O Capital‘, influenciaram a fundação do Partido Comunista Chinês. As informações constam em um artigo da Foreign Affairs.
De acordo com dados oficiais, na economia real – agricultura, indústria e serviços públicos – a participação da remuneração do trabalho caiu de 21% em 1987 para 15% em 2023. Nos setores de serviços, incluindo financeiro e imobiliário, os salários mantêm-se praticamente no mesmo patamar da década de 1980. Isso significa que, mesmo com aumento absoluto da renda, os trabalhadores ficaram atrás de detentores de capital e do governo em ganhos relativos.

A China utiliza a exploração da mão de obra para gerar excedente de capital, usado em fábricas, infraestrutura e expansão industrial. Em 2016, a produção manufatureira chinesa foi equivalente à soma das nove maiores economias seguintes – e, após dedução dos salários, equivalia à produção combinada das 12 maiores economias. Essa estratégia reduz custos e fortalece exportações, mas limita o consumo interno e mantém desigualdade salarial.
Além disso, o salário mínimo chinês caiu de 0,37 para 0,27 do PIB per capita entre 2000 e 2024, comparativamente menor que países mais pobres, como o Vietnã. Diretrizes governamentais fixam tetos e pisos salariais, muitas vezes beneficiando funcionários públicos e empresas de alto desempenho, enquanto empresas menores congelam salários ou os reduzem.
A baixa remuneração não só afeta trabalhadores chineses, mas também consumidores e produtores globais. A superprodução e os preços baixos das exportações chinesas levaram ao fechamento de fábricas e perda de empregos em diversos países. A China representa hoje 35% da capacidade produtiva mundial, mas apenas 11% do consumo global, mostrando que o problema não é produtividade, mas distribuição de renda e escala de exploração laboral.
Especialistas defendem que aumentar salários, remover tetos salariais e fortalecer direitos trabalhistas poderia equilibrar a economia chinesa, estimular o consumo interno e reduzir tensões comerciais. Sem essas mudanças, a desigualdade continuará a crescer, e os cidadãos não aproveitarão plenamente os frutos do crescimento econômico que ajudaram a criar.