A China intensificou sua ofensiva contra redes criminosas responsáveis por golpes online no Sudeste Asiático. A ação, amplamente divulgada pela mídia estatal, tem como alvo cidadãos chineses que controlavam esquemas bilionários de fraude e tráfico humano em Mianmar, onde milhares de pessoas foram mantidas em cativeiro e forçadas a aplicar golpes virtuais. As informações são da BBC.
Imagens divulgadas pela televisão estatal mostram fileiras de suspeitos escoltados por agentes de segurança e confissões televisionadas de chefes mafiosos, como Chen Dawei, integrante da influente família Wei. O caso simboliza uma repressão sem precedentes a organizações criminosas que prosperaram durante duas décadas na cidade fronteiriça de Laukkaing, convertida em um polo de cassinos, prostituição e cibercrime.

Segundo a mídia chinesa, desde 2023, autoridades da China e de Mianmar prenderam mais de 57 mil cidadãos chineses envolvidos em fraudes cibernéticas, extorsão e tráfico de pessoas. O governo também afirma ter “efetivamente controlado” o aumento dos crimes virtuais.
A operação mira quatro famílias poderosas, Wei, Liu, Ming e Bai, que mantinham “fazendas de golpes”, onde trabalhadores eram obrigados a enganar vítimas pela internet sob ameaça de espancamentos, tortura e até morte. Em alguns casos, os líderes desses grupos foram condenados à morte.
A repressão também responde à crescente indignação pública. Histórias de chineses atraídos por falsas promessas de emprego e sequestrados em centros de fraude se tornaram comuns nas redes sociais. O filme ‘No More Bets’ (“Sem Mais Apostas”, em tradução literal), que retrata vítimas desse tipo de crime, liderou as bilheteiras em 2023 e despertou temor sobre o tema.
Em janeiro deste ano, o caso do ator chinês Wang Xing, sequestrado na Tailândia e levado a Mianmar, viralizou e reforçou a pressão sobre Beijing. “Ao divulgar essas operações, as autoridades buscam acalmar a população e mostrar controle sobre o problema”, disse à reportagem a professora Selina Ho, da Universidade Nacional de Cingapura.
Especialistas alertam que o envolvimento de cidadãos chineses na liderança de esquemas internacionais prejudica a imagem do país. “Isso corrói a reputação global da China”, afirmou o pesquisador Ivan Franceschini, autor do livro Scam: Inside Southeast Asia’s Cybercrime Compounds (“Golpe: Dentro dos Complexos de Cibercrime do Sudeste Asiático”, em tradução literal).
A ONU estima que centenas de milhares de pessoas ainda estejam presas em redes semelhantes em todo o mundo. Apesar dos números alarmantes, Beijing tenta reforçar a narrativa de que o Estado está vencendo a batalha contra o crime organizado digital.