A guerra civil de Mianmar está deixando de ser apenas uma disputa pelo controle do país. O conflito já produz efeitos diretos sobre migração, segurança, crime organizado e meio ambiente em praticamente todas as fronteiras do país.
O movimento mais recente ocorreu na Malásia. O governo de Kuala Lumpur informou que cerca de 10 mil cidadãos de Mianmar foram repatriados desde janeiro. Nesta quarta-feira (7), o líder militar Min Aung Hlaing chegou ao país para uma visita oficial, em uma aproximação que também envolve a tentativa malaia de acelerar o retorno de cidadãos de Mianmar. A Reuters relata que a Malásia enfrenta pressão interna para retirar migrantes sem documentação enquanto a guerra continua em Mianmar.

O problema é que as fronteiras de Mianmar funcionam como corredores de uma economia ilegal cada vez mais diversificada. Na fronteira com a Tailândia, centros de golpes digitais continuam operando apesar das operações militares anunciadas pela junta. Segundo levantamento citado pela Al Jazeera, mais de 5.300 pessoas permaneciam presas em complexos de fraude próximos à fronteira tailandesa em junho.
A Referência já havia mostrado como a repressão da junta contra esses centros não necessariamente desmontou o negócio. Análises citadas pela reportagem do site indicaram que parte das estruturas destruídas em Myawaddy foi substituída por novos complexos, mantendo uma indústria que combina fraude digital, lavagem de dinheiro e tráfico humano.
A crise também atravessa a fronteira por meio do meio ambiente. A mineração ilegal de terras raras e ouro no Estado Shan contaminou rios que entram na Tailândia. Uma investigação da Associated Press identificou níveis elevados de metais pesados em tributários do Mekong e alertou para os efeitos sobre pesca e agricultura. Cerca de 70 milhões de pessoas dependem do sistema do Mekong no Sudeste Asiático.
O problema não é apenas ambiental. A mineração se tornou parte da economia de guerra. Um relatório da ONU divulgado em agosto apontou a expansão acelerada da mineração ilegal de terras raras em Kachin e Shan, com centenas de novos locais identificados desde o golpe de 2021. A Reuters informou que o comércio desses minerais chegou a movimentar cerca de US$ 1,4 bilhão em 2023.
A fronteira com Bangladesh apresenta outro efeito da guerra. A violência no Estado Rakhine continua impedindo o retorno dos rohingyas que fugiram para o país. Em setembro, um ataque aéreo em Kyauktaw, próximo à fronteira, matou cerca de 50 pessoas, segundo informações citadas pela Reuters. A ONU afirmou que as condições ainda não permitem um retorno seguro dos refugiados.
A Índia também enfrenta uma fronteira de mais de 1.600 quilômetros com Mianmar atravessada por grupos armados, deslocamentos populacionais e contrabando. A Referência já havia tratado da mudança de postura de Nova Délhi, que passou a manter canais de diálogo com forças que combatem a junta em uma tentativa de proteger seus próprios interesses na região.
O resultado é uma transformação silenciosa da crise. Mianmar não precisa conquistar território estrangeiro para afetar seus vizinhos. A guerra já está exportando pessoas, organizações criminosas, dinheiro ilícito, poluição e instabilidade através das fronteiras.
É por isso que o problema começa a escapar da categoria de “guerra civil”. Para Tailândia, Bangladesh, Índia e Malásia, Mianmar já é também uma questão de segurança regional. E a aproximação de governos do Sudeste Asiático com Min Aung Hlaing mostra que, diante da incapacidade de encerrar o conflito, os países vizinhos estão começando a administrar suas consequências diretamente.
Por que isso importa?
Mianmar enfrenta “uma campanha de terror com força brutal”, segundo palavras da ONU (Organização das Nações Unidas). A repressão imposta pelo governo militar foi uma reação às eleições presidenciais de novembro de 2020.
Na ocasião, a NLD venceu as eleições com 82% dos votos, ainda mais do que havia obtido no pleito de 2015. Em fevereiro de 2021, então, a junta militar, que já havia impedido a sigla de assumir o poder antes, prendeu Suu Kyi, dando início a protestos respondidos com violência pelas forças de segurança nacionais.
As ações abusivas da junta levaram ao isolamento global de Mianmar, e em dezembro de 2022 o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução histórica que insta os militares a libertar Suu Kyi. A Resolução 2669 ainda exige “o fim imediato de todas as formas de violência” e pede que “todas as partes respeitem os direitos humanos, as liberdades fundamentais e o Estado de Direito”.
A proposta, feita pelo Reino Unido, foi aprovada no dia 21 de dezembro de 2022 com 12 votos a favor. Os membros permanentes China e Rússia se abstiveram, optando por não exercer vetos. A Índia também se absteve.
Beijing e Moscou, por sinal, estão entre os poucos governos do mundo que mantêm relações formais com Mianmar, inclusive vetando resoluções que venham a condenar a brutalidade dos atos contra opositores e a população civil em geral, como no caso de dezembro de 2022.
Inicialmente, o golpe de Estado foi recebido com reprovação pela China, que vinha dialogando para firmar acordos comerciais com o governo eleito e perdeu financeiramente com a queda. Mas o cenário mudou rapidamente. Para não se distanciar da junta, Beijing classificou a prisão de Suu Kyi e de outros funcionários do governo como uma “remodelação de gabinete”, palavras usadas pela agência de notícias estatal Xinhua.
A China é um também dos principais fornecedores de armas para a juntar militar, desrespeitando um pedido de embargo global feito pela ONU para enfraquecer o regime birmanês. Há indícios de que as forças locais seguem se equipando com novos armamentos chineses, tendo ainda como fornecedores complementares a Rússia e o Paquistão.