Nova ponte, mais comércio e diplomacia: China tenta retomar controle estratégico sobre a Coreia do Norte

Fortalecimento do comércio, obras de infraestrutura na fronteira e reaproximação diplomática indicam que Beijing tenta trazer Pyongyang de volta à sua órbita, em meio ao interesse dos EUA em retomar o diálogo nuclear

A China está intensificando seus esforços para reforçar a influência sobre a Coreia do Norte, em meio a sinais de aproximação econômica, obras de infraestrutura na fronteira e a retomada de contatos diplomáticos entre os dois países. O movimento ocorre enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demonstra interesse em retomar as negociações com o líder norte-coreano Kim Jong‑un. As informações são da Reuters.

Uma análise trazida pela reportagem indica que Beijing tem buscado trazer Pyongyang de volta à sua órbita estratégica após anos de relações tensas. Nos últimos anos, o regime norte-coreano se aproximou da Rússia, especialmente após a invasão da Ucrânia em 2022, fornecendo tropas e armamentos em troca de combustível e alimentos.

Xi Jinping, Kim e líderes mundiais participam do Desfile do Dia da Vitória da China em setembro de 2025 em Beijing (Foto: WikiCommons)

A reaproximação com a China ficou evidente durante a visita de Kim a Beijing em setembro, quando participou de um desfile militar ao lado do presidente chinês Xi Jinping. Na ocasião, o líder norte-coreano levou uma equipe econômica para discutir comércio e investimentos. Cinco semanas depois, o primeiro-ministro chinês Li Qiang visitou Pyongyang, sinalizando um novo momento nas relações bilaterais.

Comércio cresce e reforça dependência

Dados comerciais mostram que as exportações da China para a Coreia do Norte atingiram US$ 2,3 bilhões em 2025, o maior nível em seis anos e um aumento de 25% em relação ao ano anterior.

Mesmo sob sanções internacionais devido ao programa nuclear norte-coreano, o comércio entre os dois países continua ativo. Produtos que exigem muita mão de obra, como perucas, cílios postiços e barbas artificiais, passaram a representar quase metade das importações chinesas vindas da Coreia do Norte, segundo dados alfandegários.

Pequim também ampliou a compra de minerais estratégicos norte-coreanos, como molibdênio e tungstênio, matérias-primas usadas na fabricação de componentes militares e de foguetes.

Reabertura gradual

Imagens de satélite analisadas pela Reuters mostram novas obras em diversos pontos da fronteira entre os dois países, que se estende por cerca de 1.350 quilômetros. Entre os projetos estão melhorias em estradas, instalações portuárias e estruturas alfandegárias.

Um dos pontos mais simbólicos é a Nova Ponte sobre o Rio Yalu, projetada para ligar a cidade chinesa de Dandong à cidade norte-coreana de Sinuiju. Embora concluída pela China em 2014, a ponte nunca foi oficialmente inaugurada.

Nova ponte sobre o rio Yalu (Foto: WikiCommons)

No lado norte-coreano, especialistas identificaram a construção de instalações alfandegárias, armazéns e áreas para transferência de cargas. As obras avançaram ao longo de 2025, mas foram interrompidas em novembro, sem explicação oficial.

Além da infraestrutura, sinais operacionais de reaproximação também começaram a surgir. A China anunciou a retomada dos serviços de trem de passageiros entre Beijing, Dandong e Pyongyang, suspensos desde 2020, durante a pandemia de Covid-19.

Por enquanto, as viagens estão restritas a pessoas com visto de negócios norte-coreano.

Estratégia

Analistas avaliam que o fortalecimento dos laços com Beijing pode permitir à China recuperar parte da influência estratégica sobre Pyongyang, ao mesmo tempo em que envia uma mensagem a Washington.

Segundo especialistas, ao aprofundar os vínculos econômicos com o regime de Kim, Beijing reforça a dependência norte-coreana e ganha maior capacidade de influenciar qualquer negociação futura entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos.

Em fevereiro, durante um congresso do partido governante, Kim prometeu expandir o arsenal nuclear do país e afirmou que qualquer melhora nas relações com os EUA dependerá da mudança de postura de Washington.

Trump, que planeja visitar a China no final de março e início de abril, afirmou recentemente que gostaria de se reunir novamente com o líder norte-coreano, retomando o diálogo iniciado durante seu primeiro mandato.

Apesar da reaproximação entre China e Coreia do Norte, a reabertura completa do país asiático ainda é incerta. A fronteira permanece amplamente fechada desde 2020, e o turismo internacional ainda não foi restabelecido.

Mesmo assim, moradores da cidade chinesa de Dandong acompanham com expectativa qualquer sinal de mudança. A região já viveu ciclos de crescimento baseados no comércio com a Coreia do Norte e espera que uma eventual abertura traga nova atividade econômica.

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