Porcos na China entram de dieta e soja americana sai do cardápio

O aumento dos custos e as tensões comerciais levam a China a adotar ração fermentada na criação de porcos, reduzindo a dependência da soja importada e reforçando a segurança alimentar

A China está revolucionando a alimentação de seus porcos ao adotar ração fermentada, uma estratégia que promete reduzir a dependência da soja americana, cortar custos para os produtores e fortalecer a segurança alimentar do país. A medida ganha força em meio às tensões comerciais com os Estados Unidos e à alta nos preços da soja. As informações são da Reuters.

Pequena criação de porcos no condado de Shunyi, uma área agrícola perto de Beijing (Foto: International Livestock Research Institute/Flickr)
Como funciona a ração fermentada

Em fazendas como a de Gao Qinshan, em Taizhou, província de Jiangsu, grandes tanques de quatro metros contêm uma mistura fermentada de farelos, ramas de abóbora e borras de vinho. O processo de fermentação, semelhante ao iogurte, quebra parcialmente as proteínas, tornando-as mais fáceis de digerir e reduzindo a necessidade de soja, do qual a China importa 80%.

Gao explica que a mudança é motivada principalmente por custos. “Os preços da soja se tornaram muito instáveis. Todos estão pensando em como cortar gastos”, afirma. A ração representa cerca de 70% do custo de criação de porcos, e a volatilidade da soja torna a operação cada vez menos lucrativa.

Motivação estratégica de Beijing

Além da economia, Beijing vê a ração fermentada como parte de uma estratégia de autossuficiência alimentar. A medida acompanha políticas similares em tecnologia e inteligência artificial, com o objetivo de reduzir a dependência de importações críticas. “O maior objetivo da política nacional neste momento é reduzir o consumo de farelo de soja”, diz Fu Zhenzhen, analista da Beijing Orient Agribusiness Consultants.

Crescimento da ração fermentada na China

Atualmente, a ração fermentada na China representa 8% da ração industrial, ante 3% em 2022. Especialistas do setor estimam que o percentual alcance 15% até 2030, permitindo uma redução de até 6,3% nas importações de soja em relação ao ano passado.

Grandes produtores, como Muyuan Foods e New Hope Liuhe, já adaptaram suas rações, enquanto empresas de laticínios, como Yili e Mengniu, reduziram o farelo de soja na alimentação de bovinos em 20%.

Apesar das vantagens, a fermentação exige conhecimento técnico e planejamento. Porcos podem amadurecer mais lentamente ou apresentar maior risco de doenças se a fermentação não for feita corretamente. Além disso, o paladar da carne permanece um teste crítico para a aceitação dos consumidores.

Segundo Ian Lahiffe, consultor agrícola em Beijing, “há grande demanda por carne de melhor qualidade, mas a indústria está focada apenas em reduzir custos e seguir as diretrizes do governo. Eles precisam garantir saúde animal e sabor da carne.”

Perspectivas para o futuro

O mercado de ração fermentada na China saltou para US$ 6 bilhões no último ano, aproximando-se do mercado europeu, líder do setor, avaliado em US$ 7 bilhões. Para aves, a taxa de adoção na China já supera a Europa, mostrando que o país busca não apenas cortar custos, mas liderar a inovação alimentar globalmente.

A estratégia de Beijing reflete uma tentativa de equilibrar economia, autossuficiência e qualidade alimentar, enquanto transforma a pecuária chinesa e diminui a dependência de soja americana.

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