A Human Rights Watch (HRW) acusou os governos dos Estados Unidos e do Equador de expor civis a abusos e violações de direitos humanos durante operações conjuntas de combate ao narcotráfico realizadas no início de 2026. O relatório, divulgado nesta terça-feira (21), reúne evidências de supostas detenções arbitrárias, tortura, destruição de propriedades rurais e ataques contra embarcações pesqueiras no Pacífico Oriental. As informações são da Al Jazeera.
Segundo a organização, as operações ocorreram entre janeiro e março deste ano e envolveram apoio direto dos Estados Unidos às forças de segurança equatorianas. A HRW afirma que Washington forneceu equipamentos, treinamento, inteligência e suporte militar ao governo do presidente equatoriano Daniel Noboa.

A entidade pediu ao Congresso dos Estados Unidos que amplie a fiscalização sobre a cooperação militar entre os dois países. Para a diretora da HRW para as Américas, Juanita Goebertus, a parceria tem sido marcada por falta de transparência e riscos à população civil.
O relatório é baseado em 62 entrevistas, além da análise de fotografias, vídeos, imagens de satélite, registros médicos, documentos judiciais e dados de monitoramento marítimo.
Tortura e destruição
Um dos principais casos apontados pela investigação ocorreu entre os dias 1º e 6 de março, em uma comunidade próxima à fronteira entre Equador e Colômbia. De acordo com a HRW, soldados equatorianos detiveram quatro trabalhadores de uma fazenda leiteira, incendiaram propriedades e lançaram munições sobre os locais posteriormente.
Um dos homens relatou aos investigadores ter sido submetido a choques elétricos durante os interrogatórios.
As autoridades dos Estados Unidos e do Equador afirmaram que a operação tinha como alvo instalações ligadas ao grupo armado Comandos de la Frontera. No entanto, a HRW sustenta que não encontrou evidências que comprovassem a presença da organização nas propriedades atingidas.
Após analisar imagens, registros de propriedade e documentos comerciais, os investigadores concluíram que dois dos locais estavam abandonados havia anos e que o terceiro era uma fazenda em funcionamento.
Pescadores relatam ataques no Pacífico
O relatório também descreve supostos ataques contra embarcações pesqueiras equatorianas próximas às Ilhas Galápagos. Entre janeiro e março de 2026, duas embarcações teriam sido atingidas durante operações antidrogas. Uma terceira embarcação, o Fiorella, desapareceu junto com seus oito tripulantes.
Tripulações de barcos sobreviventes relataram ter sido abordadas por homens identificados como cidadãos americanos usando uniformes de estilo militar e insígnias da bandeira dos Estados Unidos.
Washington nega envolvimento direto nos ataques marítimos. Ainda assim, a denúncia surge em meio à ampliação das operações americanas contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Caribe e no Pacífico Oriental.
Mudança na estratégia dos EUA
O caso ocorre em um contexto de endurecimento da política externa do governo Trump para a América Latina. Nos últimos meses, a administração americana passou a classificar diversos grupos criminosos como organizações terroristas estrangeiras e a enquadrar o combate ao narcotráfico como parte de uma guerra contra os chamados “narcoterroristas”.
No Equador, a aproximação com Washington coincide com uma escalada da violência associada ao tráfico de drogas. O presidente Daniel Noboa tem ampliado o uso das Forças Armadas em operações de segurança pública e renovado sucessivos estados de emergência.
Organizações de direitos humanos alertam que a estratégia pode aumentar os riscos de violações contra a população civil. A própria HRW afirma que ainda há muitas perguntas sem resposta sobre o desaparecimento da embarcação Fiorella e sobre o nível real de participação dos Estados Unidos nas operações denunciadas.