Seis meses de guerra com o Irã deixam quatro questões em aberto

Seis meses após o início do conflito, pressão econômica, negociações, Estreito de Ormuz e apoio de Rússia e China estão entre os fatores que podem definir a próxima fase da guerra

Seis meses após os ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o conflito continua sem uma solução definida. As operações militares atingiram parte importante da capacidade de defesa iraniana, mas Teerã mantém capacidade de interferir na navegação pelo  Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo e gás do mundo. As informações são da Radio Free Europe.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam quatro questões centrais para a próxima fase da guerra: a capacidade do Irã de suportar a pressão econômica, a possibilidade de retomada das negociações diplomáticas, o futuro do Estreito de Ormuz e o papel de Rússia e China na reconstrução das capacidades iranianas.

Porta-aviões USS Dwight D. Eisenhower, seguido pelo USNS Arctic e pelo destróier USS Nitze, atravessa o Estreito de Ormuz (Foto: WikiCommons)
Pressão econômica

A economia iraniana está sob forte pressão após meses de guerra e novas medidas de sanções anunciadas pelos Estados Unidos.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou em 24 de agosto novas medidas para ampliar o isolamento econômico do Irã. O tema também deve ser discutido durante reuniões do G20 previstas para ocorrer entre 31 de agosto e 1º de setembro, em Asheville, na Carolina do Norte.

O vice-almirante aposentado Robert Harward, ex-vice-comandante do Comando Central dos EUA, afirmou que a duração da pressão econômica pode se tornar um fator relevante para o governo iraniano.

Entre os pontos de atenção estão a capacidade de Teerã de manter pagamentos a instituições estatais e forças de segurança e o abastecimento de combustível e outros produtos essenciais.

A China ocupa posição importante nesse cenário. Segundo Elaine Dezenski, do Center on Economic and Financial Power, ligado à Foundation for Defense of Democracies, cerca de 80% do petróleo exportado pelo Irã tem a China como destino.

Ao mesmo tempo, o petróleo iraniano representa aproximadamente 12% a 13% das importações chinesas de petróleo bruto. Beijing, até o momento, manteve suas relações comerciais com Teerã apesar da pressão exercida por Washington.

Diplomacia

A segunda questão é a possibilidade de uma solução diplomática depois de meses de operações militares. Autoridades americanas afirmaram que os ataques provocaram danos significativos à infraestrutura militar iraniana. Em junho, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou que a base industrial de defesa do Irã havia sofrido uma “destruição maciça”, estimada por ele entre 80% e 90%.

O presidente Donald Trump também apresentou diferentes estimativas sobre os danos provocados aos mísseis e lançadores iranianos.

Apesar dos ataques, o Irã manteve capacidade de interferir na circulação de navios pelo Estreito de Ormuz. O cenário mantém aberta a possibilidade de novas negociações, mas não há acordo definitivo estabelecido.

Para Bradley Bowman, diretor sênior do Center on Military and Political Power, a principal dificuldade está em transformar resultados militares em um acordo político duradouro.

Dentro do Irã, também existem posições diferentes sobre o momento adequado para negociar. Integrantes da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) demonstraram resistência a negociações antes das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, previstas para novembro. Outros integrantes do governo iraniano vêm destacando os problemas econômicos e a necessidade de retomar a diplomacia.

O Estreito de Ormuz

O Estreito de Ormuz permanece como uma das principais cartas de Teerã no conflito. A passagem marítima conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico. Por ela passam aproximadamente 20% do petróleo, do gás natural liquefeito e de outras commodities importantes comercializadas mundialmente.

Em seu ponto mais estreito, o canal possui cerca de 39 quilômetros de largura. A possibilidade de interrupção da navegação pelo estreito tem impacto direto sobre os mercados internacionais de energia. Mesmo sem um bloqueio completo, ataques pontuais contra navios ou infraestrutura podem aumentar os custos de seguro e dificultar o transporte marítimo.

O professor Gawdat Bahgat, do National Defense University, considera que o Estreito de Ormuz se tornou uma das principais ferramentas de negociação ainda disponíveis para Teerã.

Outro ponto envolve o status jurídico da região. Irã e Omã reivindicam águas territoriais de até 22,2 quilômetros, conforme o limite previsto pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). Como resultado, não há uma faixa de águas internacionais no trecho mais estreito.

O Irã não ratificou a CNUDM. Os Estados Unidos também não ratificaram a convenção.

Rússia e China

A quarta questão envolve a capacidade de Rússia e China de ajudar o Irã a reconstruir suas estruturas militares e econômicas.

Segundo especialistas ouvidos pela RFE/RL, a cooperação entre os três países já envolve petróleo, materiais de uso dual, tecnologia e equipamentos militares.

Bradley Bowman citou o fornecimento de precursores químicos por empresas chinesas e o uso de informações e drones russos como exemplos da cooperação.

Também existe a possibilidade de a Rússia fornecer caças Su-35 ao Irã. No caso da China, especialistas avaliam que Beijing poderia ampliar o fornecimento de materiais de uso dual para incluir armas e munições.

O alcance dessa cooperação dependerá, entre outros fatores, da resposta dos Estados Unidos. Washington pode ampliar sanções contra empresas chinesas ou russas envolvidas nas relações comerciais e militares com Teerã.

Para a China, um dos principais riscos seria sofrer sanções secundárias americanas. Ao mesmo tempo, medidas desse tipo poderiam provocar novas respostas de Beijing.

Um estudo citado por Bowman registrou 616 episódios de cooperação em segurança entre China, Rússia, Irã e Coreia do Norte entre janeiro de 2019 e dezembro de 2025. Os casos envolveram desenvolvimento e transferência de armas, exercícios militares, compartilhamento de informações e diplomacia militar.

Quatro fatores

Após seis meses de guerra, a evolução do conflito depende de uma combinação de fatores econômicos, militares e diplomáticos.

A capacidade do Irã de manter sua economia funcionando, a possibilidade de novas negociações, a situação do Estreito de Ormuz e o nível de apoio recebido de Rússia e China estão entre os principais pontos acompanhados por governos e especialistas.

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