A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) corre o risco de enfraquecer sua capacidade de dissuasão ao demonstrar excessiva preocupação em evitar uma escalada militar com a Rússia. Essa é a avaliação de Vytautas Leskevicius, ex-embaixador da Lituânia junto à aliança, em artigo de opinião publicado pela revista americana Newsweek.
Para o diplomata, a insistência ocidental em demonstrar moderação pode transmitir ao Kremlin a percepção de que determinadas ações contra países da aliança terão consequências limitadas. O problema, segundo ele, não está apenas na capacidade militar dos países ocidentais, mas também na disposição política de utilizar seus recursos para responder às provocações russas.
Leskevicius é assessor de política externa do Centro de Estudos de Geopolítica e Segurança, sediado na Lituânia. Em sua análise, ele argumenta que Moscou continuará avançando sobre os limites estabelecidos pelo Ocidente enquanto considerar que os custos dessas ações são suportáveis.

Guerra híbrida
O autor relaciona a atual situação a uma sequência de confrontos entre a Rússia e países ocidentais. Entre os exemplos estão a guerra russo-georgiana de 2008, a anexação da Crimeia por Moscou em 2014 e a invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022.
Leskevicius também menciona atividades atribuídas à Rússia que ocorrem abaixo do nível de uma guerra convencional, como sabotagens, ataques cibernéticos, interferências em sistemas de navegação por satélite e incursões de drones em territórios da Otan.
Essas ações se enquadram no que governos e especialistas costumam chamar de guerra híbrida: uma combinação de instrumentos militares e não militares, que pode incluir operações cibernéticas, desinformação, sabotagem e pressão econômica. O objetivo é atingir os interesses de um adversário sem necessariamente desencadear um confronto militar aberto.
Na avaliação do diplomata, a classificação dessas ações como ameaças abaixo do limiar de conflito pode acabar minimizando sua gravidade. Ele argumenta que a destruição física de uma infraestrutura ou a entrada de um drone carregado de explosivos em território aliado não deixa de representar uma ameaça concreta porque faz parte de uma operação mais ampla de guerra híbrida.
A preocupação central é que a ausência de uma resposta considerada proporcional possa levar Moscou a concluir que os limites estabelecidos pela aliança são flexíveis e podem ser ultrapassados sem consequências significativas.
O problema da dissuasão
A dissuasão é um dos princípios centrais da estratégia militar da Otan. A ideia consiste em convencer um possível adversário de que os custos de uma agressão serão altos demais para compensar os ganhos esperados.
Na prática, isso depende tanto da capacidade de reação quanto da credibilidade das ameaças. Um país pode dispor de forças armadas bem equipadas, mas sua capacidade de dissuasão será limitada se um adversário acreditar que ele não terá disposição política para utilizá-las.
Leškevičius critica justamente o que considera uma previsibilidade excessiva da resposta ocidental. Segundo ele, a mensagem transmitida pela aliança enfatiza sua natureza defensiva, os investimentos em armamentos e a necessidade de manter a calma, mesmo diante de ações que atribui a Moscou.
O diplomata cita declarações do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, na Alemanha. Em meio a preocupações com sabotagens e incursões de drones, Rutte pediu aos aliados que mantivessem a calma, continuassem suas atividades e apoiassem a Ucrânia.
Para Leškevičius, a questão é saber se esse tipo de mensagem realmente influencia as decisões do Kremlin. Se a Rússia acreditar que os países ocidentais evitarão qualquer medida que possa agravar o confronto, a política de contenção poderá produzir o efeito contrário ao pretendido.
A lição da Guerra Fria
Como alternativa, o ex-embaixador recorre à estratégia de resposta flexível adotada pela Otan durante a Guerra Fria. Associada à diretriz militar MC 14/3, aprovada em 1967, essa abordagem buscava impedir que um adversário previsse exatamente como a aliança reagiria a uma agressão.
A lógica era combinar incerteza sobre a resposta específica com clareza sobre suas possíveis consequências. Um adversário não precisaria saber qual seria a reação da Otan, mas deveria considerar a possibilidade de enfrentar custos inaceitáveis.
Leškevičius defende uma lógica semelhante para o cenário atual. Em sua avaliação, a aliança deveria preservar a liberdade de escolher o momento, os meios, a dimensão e o alcance geográfico de uma eventual resposta, sem antecipar todas as restrições que pretende respeitar.
Isso não significa, necessariamente, responder militarmente a cada incidente ou abandonar os esforços para evitar uma guerra direta com a Rússia. O argumento é que a gestão da escalada precisa ser acompanhada de sinais claros de que determinadas ações terão consequências.
O diplomata também rejeita a ideia de que estabelecer limites mais claros necessariamente favoreceria o governo russo ao estimular o nacionalismo e a mobilização da população contra o Ocidente.
Para ele, o mais importante não é impedir que Moscou teste os limites da aliança, mas garantir que o resultado desses testes não reforce a percepção de que a contenção ocidental representa uma oportunidade para novas provocações.
A avaliação de Leskevicius reflete um dilema estratégico enfrentado pela Otan desde o início da guerra em larga escala na Ucrânia: como aumentar os custos das ações russas sem provocar um confronto militar direto entre a Rússia e os países da aliança.
A Otan reúne 32 países, incluindo Estados Unidos, Canadá e a maior parte da Europa. Seu princípio de defesa coletiva, estabelecido no artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, prevê que um ataque armado contra um integrante seja considerado um ataque contra todos. A aplicação desse princípio, entretanto, depende das circunstâncias e das medidas que cada aliado considerar necessárias.