A Sérvia realiza eleições parlamentares antecipadas neste domingo (25), em uma disputa que pode redefinir o futuro político do país. De um lado está Aleksandar Vucic, presidente que domina a política sérvia há mais de uma década. Do outro, um movimento de oposição liderado por estudantes que ganhou força após uma onda de protestos contra o governo. As informações são do site investigativo Meduza.
A votação ocorre em meio a críticas sobre o enfraquecimento das instituições democráticas, a concentração de poder e a falta de independência da imprensa. O resultado também poderá determinar se Vucic conseguirá continuar no comando do país mesmo após o fim de seu mandato presidencial.

Por que Vucic quer continuar no poder?
Vucic chegou ao cargo de primeiro-ministro em 2014 e foi eleito presidente em 2017. Desde então, seu partido, o Partido Progressista Sérvio (SNS), consolidou o controle sobre a política nacional.
Organizações internacionais apontam uma deterioração das condições democráticas no país. A Freedom House identificou restrições aos direitos políticos e às liberdades civis, enquanto a organização Repórteres Sem Fronteiras registrou uma queda expressiva da Sérvia no ranking mundial de liberdade de imprensa.
A Constituição sérvia impede Vucic de disputar um terceiro mandato presidencial. Por isso, ele pretende migrar para o cargo de primeiro-ministro, que tem poderes relevantes sobre as políticas interna e externa e a administração pública.
A estratégia permite que o atual presidente tente preservar sua influência política sem permanecer formalmente na chefia de Estado. Para isso, porém, seu partido precisa conquistar apoio suficiente no Parlamento.
Estudantes lideram oposição
O principal adversário do SNS é a Lista Estudantil — Os Estudantes Vencem, movimento que surgiu no contexto dos protestos antigovernamentais iniciados em 2024.
Apesar do nome, a candidatura não é formada exclusivamente por estudantes. Sua lista parlamentar inclui professores universitários, pesquisadores, profissionais especializados e atletas. O cardiologista Ilija Srdanović, professor da Universidade de Novi Sad, ocupa a primeira posição.
O movimento reúne grupos com diferentes orientações políticas, de nacionalistas a liberais. Para preservar a unidade, seus integrantes evitam assumir posições definitivas sobre temas que provocam divisões internas, como a aproximação com a União Europeia, as relações com a Rússia e a independência do Kosovo.
O programa eleitoral prioriza o combate à corrupção, a liberdade de imprensa, a modernização do sistema educacional e melhorias na saúde pública. Também prevê medidas para facilitar o acesso à moradia para famílias jovens e trabalhadores de serviços essenciais.
A principal dificuldade dos opositores é enfrentar uma estrutura política que dispõe de maior acesso aos meios de comunicação e às instituições estatais.
Economia e estabilidade são apostas do governo
Durante a campanha, Vucic e o SNS destacam o crescimento econômico, a atração de investimentos estrangeiros e os grandes projetos de infraestrutura.
Entre as iniciativas promovidas pelo governo estão as obras do metrô de Belgrado e os preparativos para a Expo 2027, exposição internacional que será realizada na capital sérvia.
O discurso governista também enfatiza a estabilidade política. Vucic e seus aliados acusam os manifestantes de receber financiamento estrangeiro e de tentar promover uma revolução para derrubar o governo.
A oposição, por sua vez, denuncia pressões contra professores, ativistas e candidatos contrários ao SNS. A organização sérvia CRTA, que monitora processos eleitorais, relata episódios de intimidação e agressões contra integrantes da oposição.
Quem tem mais chances de vencer?
As pesquisas citadas pela imprensa sérvia apresentam resultados divergentes. Uma sondagem da agência Factor Plus indica vantagem para a coligação governista, com 48,7% das intenções de voto, contra 37,1% da Lista Estudantil.
Outras estimativas apontam uma disputa mais equilibrada, mas não apresentam necessariamente a mesma metodologia ou o mesmo grau de transparência. Por isso, os números disponíveis não permitem estabelecer com segurança quem vencerá.
Mesmo que a oposição conquiste a maioria parlamentar, o resultado não garante uma transição política tranquila. Vučić poderia contestar uma eventual derrota, enquanto as divergências internas dos estudantes poderiam dificultar a formação de um governo coeso.
A experiência sérvia também mostra que a derrota de um governante não significa, por si só, a consolidação da democracia. Em 2000, protestos em massa contribuíram para a saída do então presidente Slobodan Milošević, que inicialmente se recusou a reconhecer a derrota eleitoral.