O desaparecimento do escritor e satirista cazaque Zhengis Reskhan, na região chinesa de Xinjiang, tem gerado preocupação entre familiares, ativistas e pesquisadores que acompanham a situação das minorias étnicas no oeste da China. Há quase três meses sem notícias diretas do pai, Nartai Zhengis, que vive no Cazaquistão, afirma que as autoridades chinesas não forneceram informações oficiais sobre o paradeiro do escritor nem apresentaram acusações formais contra ele. As informações são da Radio Free Europe.
Segundo relatos da família, Reskhan foi levado pela polícia em março deste ano. Desde então, parentes dizem não ter recebido documentos de detenção, mandados judiciais ou qualquer explicação formal sobre os motivos da ação.

O caso volta a chamar atenção para as denúncias envolvendo uigures, cazaques e outras minorias muçulmanas turcomanas em Xinjiang. Nos últimos anos, organizações de direitos humanos, especialistas da ONU e governos ocidentais acusaram Beijing de promover detenções arbitrárias e restrições culturais na região.
Em 2022, um relatório do Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas concluiu que denúncias de detenções arbitrárias e outros abusos em Xinjiang eram consideradas críveis e poderiam configurar crimes contra a humanidade. O governo chinês rejeita as acusações e sustenta que suas políticas têm como objetivo combater o extremismo e o terrorismo.
Pressão antes do desaparecimento
De acordo com a família, a pressão sobre Reskhan começou meses antes de seu desaparecimento. Desde dezembro de 2025, ele teria sido convocado repetidamente para interrogatórios e investigações conduzidas pelas autoridades locais.
Segundo Nartai, o pai costumava retornar para casa após períodos curtos de detenção. No entanto, após março, todo o contato foi interrompido.
Parentes em Xinjiang afirmam ter ouvido que o escritor foi transferido para a cidade de Hami, mas a informação nunca foi confirmada oficialmente pelas autoridades chinesas.
A única justificativa recebida pela família teria sido verbal. Autoridades locais teriam alegado que Reskhan possuía “ideias radicais” ou realizava atividades consideradas prejudiciais à estabilidade do Estado. Nenhuma acusação formal foi apresentada.
Escritor reconhecido na comunidade cazaque
Natural da região de Hami, Zhengis Reskhan construiu uma longa trajetória na literatura de língua cazaque. Ao longo da carreira, atuou como professor, editor, administrador cultural e dirigente de entidades literárias.
Ele ganhou notoriedade principalmente por suas obras satíricas e pela produção voltada ao público infantil. Seus livros receberam reconhecimento oficial e foram publicados por editoras autorizadas pelo governo chinês, além de integrarem a Associação de Escritores da China.
Segundo familiares, Reskhan publicou 11 coletâneas e deixou outros dois manuscritos inéditos.
Para Nartai, as suspeitas levantadas pelas autoridades não fazem sentido diante do histórico profissional do pai.
Intelectuais sob pressão
Pesquisadores que acompanham a situação em Xinjiang afirmam que o desaparecimento de Reskhan não é um caso isolado. Nos últimos anos, escritores, professores, jornalistas e artistas ligados às comunidades cazaque e uigur também teriam sido detidos ou desapareceram sem informações claras sobre seus processos.
O jornalista Zhaqsylyq Qazymuratuly, que documenta casos envolvendo intelectuais cazaques na China, afirma que muitos dos detidos seguem desaparecidos ou vivem sob forte vigilância estatal após serem libertados.
Segundo ele, a repressão passou por mudanças nos últimos anos. Enquanto as detenções em massa chamaram atenção internacional entre 2017 e 2019, o foco atual estaria voltado para intelectuais, educadores e figuras culturais capazes de preservar identidades nacionais e linguísticas.
Família busca apoio internacional
Sem respostas das autoridades chinesas, a família de Reskhan procurou ajuda junto ao governo do Cazaquistão, à Embaixada da China em Astana, a representações diplomáticas estrangeiras e a organizações internacionais de direitos humanos.
Até o momento, nenhum órgão apresentou informações concretas sobre o paradeiro do escritor.
O Ministério das Relações Exteriores do Cazaquistão informou que encaminhou uma consulta oficial ao governo chinês. Ainda assim, a família afirma que continua sem saber onde Reskhan está, se enfrenta acusações formais ou em que condições se encontra.