Questões históricas causam conflito entre República Tcheca e Rússia

Relações bilaterais passam por mau momento e políticos tchecos temem envenenamento por parte de russos
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Prefeitos diversos distritos de Praga, capital da República Tcheca, estão sob proteção policial diante da piora na relação entre o país e a Rússia. Ao menos três deles temem ser alvos de assassinos russos.

Se escondendo em um local secreto, o prefeito do distrito de Praga 6, Ondrej Kolar, afirmou em entrevista em rede nacional que um russo está na cidade com o objetivo de matá-lo. As informações são da agência de notícias Associated Press.

A revista tcheca “Respekt” afirmou na semana passada que os serviços de inteligência tchecos suspeitam que um russo estaria no país para envenenar os prefeitos Ondrej Kolar e Zdenek Hrib com ricina, toxina altamente potente. A pessoa chegou em Praga há três semanas com um passaporte diplomático.

O Ministério das Relações Exteriores da República Tcheca confirmou apenas que um diplomata russo chegou em Praga em março. O governo russo afirma que as alegações são infundadas e têm como objetivo descredibilizar o país.

Outro prefeito que se diz ameaçado é Pavel Novotny, do distrito de Reporryje, também em Praga. Ele teria chamado atenção dos russos pelos planos de construir um monumento aos soldados do general Andrei Vlasov, herói de guerra tcheco.

Mais de 300 deles morreram enquanto ajudam os tchecos na luta contra os nazistas, contribuindo com a libertação de Praga. A atuação do exército de Vlasov é vista como controversa, já que eles teriam lutado anteriormente contra o exército vermelho ao lado das tropas nazistas.

Estátua

A crise piora à medida que autoridades da República Tcheca tomam atitudes vistas com indignação pela Rússia. Um exemplo foi a remoção de uma estátua do marechal soviético Ivan Konev, que ficava em uma praça do distrito gerido por Kolar.

Segundo as autoridades, a estátua foi levada a um museu e um novo monumento em homenagem à libertação da cidade seria erguido no lugar. Os russos receberam com raiva a notícia, vista como uma tentativa de diminuir o papel russo na Segunda Guerra Mundial.

Estátua do marechal soviético Ivan Konev foi retirada de praça em Praga, na República Tcheca (Foto: Dominic Smith/Flickr)

Em abril, o presidente Vladimir Putin assinou uma lei que tornou crime danificar memoriais de guerra. A punição pode chegar a até cinco anos de prisão. Diante da legislação, o governo russo passou a investigar a retirada da estátua.

O ministro das Relações Exteriores do governo russo, Sergey Lavrov, acusou a República Tcheca de ter violado um tratado de amizade de 1993, que inclui o compromisso tcheco de proteger os memoriais de heróis russos que atuaram na II Guerra.

Há muito tempo, a estátua é fonte de atrito entre os dois países. Em 2018, as autoridades tchecas incluíram uma nova placa explicativa para o monumento.

O texto apontava o papel do marechal na revolta anti-soviética de 1956 na Hungria, sua contribuição para a construção do Muro de Berlim e na invasão da então Tchecoslováquia, liderada pelos soviéticos em 1968, que esmagou as reformas liberais conhecidas como Primavera de Praga.

O território, agora dividido entre Eslováquia e República Tcheca, foi posteriormente tomado por um regime comunista, alinhado a Moscou, que só foi deposto em 1989 com a Revolução de Veludo.

Também foi condenada pelos russos a mudança de nome da praça em frente à embaixada russa em Praga para o nome do político liberal e opositor russo Boris Nemtsov, morto em 2005.

Diplomacia

O parlamento tcheco afirmou que as atitudes russas são “um ataque sem precedentes à soberania do Estado [tcheco]” e pediu que o governo reagisse de acordo, inclusive diminuindo o número de diplomatas na embaixada russa suspeitos de espionagem.

O ministro das Relações Exteriores da República Tcheca, Tomas Petricek, afirma que um comunicado foi enviado ao governo russo, pedindo informações sobre o conflito, com base no tratado tcheco-russo de 1993.

Petricek teria pedido ao Parlamento que dê uma chance à diplomacia. Os ministros tcheco e russo não se reúnem desde 2005.

Especialistas apontam que o governo da República Tcheca subestimam o quanto os russos são sensíveis a questões históricas e que não imaginavam que mudanças como a de uma estátua causariam tanto conflito. Agora, o país busca amenizar a questão, sem parecer subserviente aos russos.

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