Américas

Ativista brasileira é conselheira do secretário-geral da ONU sobre o clima

Brasileira Paloma Costa, que aconselha a liderança das Nações Unidas, fala sobre fomento às políticas socioambientais

Este conteúdo foi publicado originalmente no portal ONU News, da Organização das Nações Unidas

Paloma Costa é formada em Direito e atua com povos indígenas. Ela conversou com a ONU News sobre ações contra desmatamento, descarbonização e combate à crise climática além da participação da juventude em iniciativas que promovam conservação do planeta e da humanidade. Leia a entrevista na íntegra a Eleutério Guevane.

ONU News: Paloma Costa é ativista ambiental do Brasil. Além de várias outras áreas em que está envolvida no país, nas Nações Unidas ela é uma jovem conselheira do painel do secretário-geral para questões sobre o clima. Paloma muito bem-vinda. Estamos aqui depois de várias promessas de líderes globais em relação a aceleração da ação climática. Como é que você vê esta dinâmica, a caminho de Glasgow na COP-26.

PC: Olha, sendo muito sincera, eu fiquei bastante desapontada com o resultado da Cúpula de ontem. Eu acho que, mais uma vez, o mundo teve a oportunidade de se comprometer a metas e objetivos realmente eficientes para a gente lidar com os impactos da emergência climática. E ver países, por exemplo como meu, que chegaram e não apresentaram nada novo, nenhuma ambição, nenhuma vontade e levar adiante e enfrentar o maior desafio que a gente enfrenta como humanidade, isso sinceramente me decepciona muito.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, em reunião virtual no seu escritório, em Nova York (Foto: UN Photo/Mark Garten)
ON: E por onde a Paloma vê que pode haver mais ação?

PC: Bom, como membro e representante do movimento da juventude, eu tenho visto um potencial muito grande nas ações e nas coisas que a gente vem liderando. Por exemplo, a gente começou esse programa aqui de educação climática, que se chama “é do clima”, com o intuito de levar educação sobre clima aqui, já não é disponível aqui no nosso país, para escolas públicas, para favelas, para comunidades e para territórios porque falar sobre clima hoje é falar sobre a vida.  Como eu estava falando na resposta anterior, me decepciona porque não só grupos da juventude, como também dos povos indígenas e das comunidades quilombolas e da sociedade civil em geral, têm apresentado tantas soluções que talvez é o que inspira mais na luta pelo clima. 

Ver a criatividade das soluções e, ainda assim, mesmo com esse dossiê de soluções disponíveis que já estão acontecendo, muitas vezes sem o apoio necessário e sem recursos nem estrutura nenhuma, mas que ainda assim os líderes mundiais vão para um espaço como a cúpula de lideranças pelo clima que aconteceu ontem e não se comprometem verdadeiramente. Para mim, a esperança está aí na juventude e em pensar que nos unindo cada vez mais a gente vai, de fato, conseguir influenciar algumas decisões que são tão importantes que estivessem acontecendo de forma diversa e inclusiva até Glasgow, para que a gente pudesse realmente dar um passo adiante na luta pelo clima, mas vamos vendo.

ON: Na sua última conversa com o secretário-geral disse que há mais uma crise que é a falta de cumprimento de promessas. Pode explicar melhor? 

PC: Bom, é porque quando a gente pensa na forma como foi construída a nossa estrutura social, como um todo, a gente foi construindo e a gente vem debatendo, há tantos anos, questões como inclusão dos Direitos Humanos, uma participação cidadã efetiva que possibilite uma ecologia social integrada, que seja por uma base de uma educação e acesso à informação parte de um processo de reflorestamento de uma consciência que são projetos super possíveis de acontecer.

Mas nessa outra onda, que é a que eu falo, e me referi, para o secretário-geral, que é esta quarta crise, a das nossas estruturas e da falta de promessas, isso tem muito a ver com o que vai definir os próximos anos para a gente como humanidade. Ou a gente escolhe uma opção inclusiva, coletiva, uma coalizão de todos os cidadãos globais, ou a gente vai estar escolhendo a nossa própria extinção como humanidade nesse planeta.

ON: Você acaba de falar de um reflorestamento de consciência. Eu gostaria que me explicasse um pouco melhor esse conceito…

PC: Esse conceito eu aprendi com Matsipaya Wauja Txucarramãe. Ele é neto do cacique Raoni Metuktire, que é uma das grandes lideranças indígenas do Brasil. E ele é cantor. Eu ajudei a criar um movimento que se chama liberte o futuro. Para ele falar o que significa libertar o futuro fez uma música que é sobre reflorestar o pensamento a partir de uma narrativa de um futuro ancestral

A gente aprender, por exemplo, com lideranças como Raoni, como é que é resistir? Como é que é manter a floresta em pé e mostrar que a floresta em pé é muito mais valiosa do que qualquer monocultura ou pecuária que venha invadir o nosso mundo. Eu acho que a ideia de reflorestar a consciência vem justamente daí: do fato de que se a gente está consciente o suficiente, a gente por exemplo que vem de uma região como a América Latina, a gente vai sim se unir e lutar por uma floresta em pé. Por que a autonomia sempre foi e sempre será a floresta em pé.

ON: A questão da preservação amazônica é sempre levantada em grandes eventos ambientais nacionais e globais. Para fecharmos esta conversa, você falou antes de iniciativas criativas. Algum exemplo?

PC: Sim, com certeza. Eu acho que vou contar um pouco desse período, de pandemia para trazer uma solução que me inspirou mesmo realmente. A pandemia com certeza está sendo muito difícil para todos nós como humanidade. 
No começo da pandemia eu, que trabalho com juventude indígena que está nos territórios, fiquei muito aflita porque não podia me comunicar com eles devido ao acesso à internet enfim eles não se estavam deslocando por questões da pandemia.

E depois, através de um processo coletivo, a gente conseguiu levar a internet para algumas aldeias. Eu pode estar em contato com os meus amigos. Muitos do lado de cá vendo as notícias todos os dias, ao redor do mundo, estavam me questionando sobre a saúde e a existência deles diante de tantas invasões no território. Não se pode deixar de notar esse caos.

Quando eu finalmente consegui falar com eles foi tão lindo ver o que eles estavam fazendo:  que era um processo de roçados comunitários. Eles queriam continuar com esse movimento que a gente tinha começado antes da pandemia de engajar a juventude na agenda climática e na agenda socioambiental. E a forma que eles encontraram foi aprender a fazer os roçados tradicionais com os mais velhos, para aprender com eles, e trazer essa consciência do ativismo, da agenda e da pauta socioambiental a parte do engajamento da juventude neste roçado.

E eles estavam tão avançados pensando em como levar essa comida para auxiliar as populações dos municípios vizinhos, que não havia tanto acesso devido a todas as restrições da pandemia. Para mim, escutar uma iniciativa como essa, regenerativa, e que traz valor em todo o processo. Comecei a ter muita esperança.