Oriente Médio

Conheça o Estado Islâmico-Khorasan, violento rival do Taleban no Afeganistão

Grupo criado na esteira do surgimento do Estado Islâmico é rival do Taleban e peça importante na geopolítica afegã após a retirada das tropas ocidentais

Por Paulo Tescarolo

No início de agosto, quando a presença militar norte-americana no Afeganistão tornou-se virtualmente irrelevante, o Taleban deixou as regiões rurais que controlava parcialmente e iniciou uma campanha militar para dominar importantes capitais provinciais. O avanço culminou, no dia 15 daquele mês, com a conquista de Cabul e a queda do governo afegão. Onze dias depois, quando os talibãs já falavam como os governantes de fato do país, um violento atentado a bomba no aeroporto Internacional de Cabul chamou a atenção para mais uma peça na complicada geopolítica local: o Estado Islâmico-Khorasan (EI-K).

O grupo jihadista não é novo no cenário afegão. A Dra. Isabelle Somma de Castro, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP, explica que o EI-K opera no país desde 2015 e surgiu na esteira da criação do Estado Islâmico (EI) do Iraque e da Síria. “O grupo é formado por membros de outros grupos do Paquistão, que escaparam da crescente pressão das forças de segurança locais para o Afeganistão”, disse ela em conversa por e-mail com A Referência.

Conheça o Estado Islâmico-Khorasan, violento rival do Taleban no Afeganistão
Combatentes do Estado Islâmico-Khorasan no Afeganistão (Foto: reprodução de vídeo)

André Luís Woloszyn, analista de assuntos estratégicos e especialista em conflitos de baixa e média intensidade, reforça que “não há diferença substancial” entre o EI e o EI-K. “Somente o local de origem”, diz ele, referindo-se a Khorasan, uma região histórica que abrangia o nordeste do Irã, o sul do Turcomenistão e o norte do Afeganistão.

Segundo Woloszyn, os membros do EI-K “processam a mesma ideologia do ISIS (sigla em inglês para Estado Islâmico do Iraque e da Síria). Inclusive, mais radicais, uma vez que adotam a violência como elemento da tomada de poder”. Algo que ficou evidente no ataque ao aeroporto, que levou à morte de 182 pessoas. E que já se podia constatar há tempos, em ataques chocantes empreendidos contra escolas para meninas, hospitais e uma maternidade em Cabul, na qual morreram desde enfermeiras até mulheres e crianças de colo.

A violência do grupo é reforçada pela Dra. Rashmi Singh, professora associada de Relações Internacionais da PUC Minas. “O Khorasan tem como alvo principalmente civis e alvos policiais e militares. E é conhecido por seu uso de ataques suicidas, tornando-o um dos grupos mais mortíferos do país, com uma alta taxa de mortes por ataque”, diz ela.

EI-K x Taleban

No Afeganistão, o EI-K tende a ser o principal opositor doméstico do Taleban. O que distancia os dois grupos é a base ideológica. “O Taleban é adepto à escola Deoband, uma interpretação do Islã que defende a subserviência da mulher, proíbe muitas tecnologias e o entretenimento. Defende que apenas o conhecimento inspirado por Deus deve ser seguido”, diz Woloszyn. O EI-K, por sua vez, “aderiu ao movimento Salafista, que, em síntese, se constitui em uma ideologia ultraconservadora do islamismo Sunita, apoiando a Sharia (lei islâmica) e castigos corporais. Acredita que o mundo deveria seguir os preceitos históricos do Islamismo”.

Esse distanciamento de ideias leva o EI-K a tratar os membros do Taleban como apóstatas, sob a acusação de que abandonaram a jihad por uma negociação diplomática. Isso tornaria válido o assassinatos de talibãs, conforme a interpretação das leis islâmicas.

Militarmente, a vantagem, ao menos por ora, é do Taleban. “O cenário que temos é de um Taleban vitorioso e com novos armamentos. E que provavelmente agregará novos recrutas, que buscam proteção e meios para sobreviver”, diz a Dra. Isabelle, sem menosprezar o poder de fogo do rival. “Vimos também que o EI-K tem armamentos de grande calibre. Eles atacaram o aeroporto com foguetes”, exemplifica ela.

Homem-bomba do EI-K no Afeganistão (Foto: reprodução de vídeo)

Considerando a diferença entre os objetivos dos dois grupos, é mais fácil imaginar o sucesso dos talibãs. “O Taleban não está interessado em nada além das fronteiras do Afeganistão”, diz a Dra. Singh, que explica ainda a meta muito mais abrangente dos rivais. “O ISIS-K está intimamente ligado à ideia de um califado islâmico que transcende os limites de um determinado Estado e incorpora a umma (comunidade formada por por todos os muçulmanos do mundo) muçulmana. Limitar a umma às fronteiras falsas de um Estado criado pelo homem é considerado não islâmico pelo ISIS-K”.

Perspectivas para o Afeganistão

A rivalidade entre os grupos extremistas pode se aproximar de uma aliança, na visão de Woloszyn. Isso porque ambos possuem um inimigo comum: os EUA. “Nesta nova configuração de poder e influência no país, não está descartada a hipótese de que o Taleban use o EI-K para atacar alvos norte-americanos. Este foi um dos motivos para os EUA se retirarem do Afeganistão, na perspectiva de um conflito prolongado e com numerosas vítimas”.

A outra opção, segundo a Dra. Isabelle, é de que “uma nova guerra civil se instale no país, repetindo o que ocorreu após a saída dos soviéticos, quando uma série de grupos e alianças se formaram e fragmentaram o país”.

Para a Dra. Singh, um eventual cenário de paz para o Afeganistão depende de um acordo com os talibãs. “Este é uma nação que está em guerra há 40 anos, e as gerações que agora governam o país nunca viram um Afeganistão sem guerra”, diz ela. “O primeiro passo para deter a violência é se envolver com o regime do Taleban, negociar com eles os direitos de todos os setores e populações étnicas do país e envolver o governo do Taleban em projetos que os obriguem a se concentrar mais na administração do país”.

Segundo ela, por mais que pareça distante, a ideia é viável. “Esta é uma posição difícil de adotar, dada a ideologia e a posição muito radicais do Taleban. No entanto, dados empíricos – juntamente com a experiência no Afeganistão – mostram claramente que uma das maneiras mais eficazes de neutralizar um grupo violento é engajá-lo no processo político em vez de excluí-lo por meio de sanções e outros mecanismos”.