Irã permanece offline após apagão digital e pode ficar isolado da internet global

Bloqueio imposto durante repressão a protestos levanta temor de isolamento permanente por meio de uma intranet controlada pelo Estado

O Irã vive um dos mais longos apagões de internet já registrados, após as autoridades bloquearem o acesso à rede global desde o início de uma repressão violenta a protestos antigoverno, em 8 de janeiro. Mesmo semanas depois, não há uma previsão clara para a normalização do serviço, o que levanta temores de um isolamento digital permanente. As informações são da Radio Free Europe.

Segundo especialistas em tecnologia e direitos digitais, o bloqueio vai além de uma medida temporária de controle. Há indícios de que o governo iraniano esteja avançando para um modelo de conectividade restrita, baseado em uma intranet nacional que funciona de forma independente da internet global.

Patrimônio público foi depredado durante protestos no começo do mês em Teerã (Foto: WikiCommons)

A organização NetBlocks, que monitora interrupções de conectividade em todo o mundo, afirmou que análises recentes de tráfego indicam a adoção experimental de um sistema de “listas de permissão”. Nesse modelo, o acesso à internet é limitado a um número reduzido de sites, aplicativos e serviços previamente aprovados pelo Estado.

Esse tipo de censura digital, conhecido como whitelist, bloqueia a maior parte da internet global e concede acesso apenas a plataformas consideradas seguras pelas autoridades. Para a organização iraniana de direitos digitais Filterbaan, ligada ao Miaan Group, o país já ultrapassou a fase de filtragem ampla e entrou em um cenário de “bloqueio absoluto”, no qual a desconexão é a regra e a conectividade, a exceção.

De acordo com a análise da Filterbaan, o Irã estaria migrando para um modelo descrito como “governança das comunicações em estilo de quartel”, em que o acesso à informação passa a ser tratado como privilégio concedido pelo Estado, e não como um direito da população.

Contradições oficiais sobre retorno da internet

Enquanto autoridades enviam sinais contraditórios, a incerteza persiste. Em 19 de janeiro, um representante do governo afirmou que o acesso à internet seria normalizado até o fim da semana. No entanto, dias antes, a porta-voz do governo, Fatemeh Mohajerani, declarou que o acesso internacional à internet não estaria disponível pelo menos até o Ano Novo Persa, celebrado em março.

Mesmo em um eventual retorno parcial da conectividade, não há expectativa de liberação de aplicativos populares de redes sociais, como Instagram, WhatsApp e Telegram. Segundo Ahmad Nirumand, chefe da Comissão de Transformação Digital do Irã, não há espaço, nas condições atuais do país, para restaurar o acesso a plataformas estrangeiras de mensagens.

Impacto econômico do apagão digital

O bloqueio prolongado já causa efeitos significativos na economia digital iraniana. Reza Olfatsefat, secretário da Associação de Negócios na Internet do Irã, afirmou que as perdas financeiras ultrapassam 400 trilhões de riais, o equivalente a cerca de 288 milhões de dólares, afetando empresas de todos os portes.

Pequenos empreendedores, trabalhadores autônomos e startups dependentes de plataformas digitais estão entre os mais prejudicados, em um cenário que agrava ainda mais a crise econômica enfrentada pelo país.

Histórico de bloqueios e censura

O controle do acesso à internet não é novidade no Irã. Desde 2009, após protestos em massa contra a reeleição de Mahmud Ahmadinejad, o governo vem impondo restrições a plataformas digitais. Em 2019, durante manifestações contra o aumento dos preços dos combustíveis, o país adotou pela primeira vez um bloqueio nacional da internet.

Medidas semelhantes foram aplicadas novamente em 2022, durante os protestos do movimento Mulher, Vida e Liberdade. Apesar dos esforços do governo para incentivar o uso de redes sociais nacionais, aplicativos estrangeiros seguem populares, e muitos iranianos recorrem a VPNs para driblar a censura.

Setores mais conservadores do regime defendem o apagão digital como ferramenta essencial para a segurança nacional em períodos de instabilidade. Para críticos e especialistas, porém, o bloqueio representa um avanço no controle estatal da informação e um passo decisivo rumo ao isolamento digital do Irã em relação ao restante do mundo.

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