O lançamento de um novo recurso do X, antigo Twitter, vem causando debate dentro e fora do Irã. Chamado de ‘About This Account’ (“Sobre esta conta”), o painel exibe informações como localização do usuário e a forma como cada conta se conecta ao aplicativo. A ferramenta rapidamente ganhou relevância por revelar quais perfis iranianos conseguem acessar a internet sem os bloqueios impostos pelo Estado. As informações são da Radio Free Europe.
A plataforma está oficialmente proibida no país desde 2009, o que obriga a maioria dos usuários a recorrer a VPNs. Ainda assim, o recurso mostrou que alguns perfis entram no X sem nenhum desvio de rota. São usuários que utilizam os chamados chips SIM brancos, uma categoria de cartão telefônico que oferece navegação irrestrita dentro do sistema conhecido como internet em camadas.

Essa internet hierarquizada transforma o acesso digital de um direito universal em um privilégio concedido a poucos, segundo o projeto Filterwatch, do Miaan Group. Assim que o recurso entrou em operação, iranianos passaram a vasculhar contas públicas, anônimas e até perfis ligados ao governo em busca de indícios de acesso privilegiado.
Amir Rashidi, diretor de segurança da internet e direitos digitais do Miaan Group, afirma que a ferramenta permite identificar com relativa precisão quem navega sem restrições: se o painel indicar que o usuário está no Irã e se conecta via loja de aplicativos local, há fortes sinais de acesso liberado.
Por lei, alguns jornalistas, acadêmicos e empresas podem ter navegação irrestrita. Mas esse grupo não é o único. Perfis que defendem a república islâmica e as políticas de censura digital também aparecem com acesso pleno. Entre eles estão as agências Fars e Tasnim, ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), além de parlamentares linha-dura que apoiam os bloqueios.
O recurso também trouxe à tona contas usadas em campanhas de influência estrangeira. Uma delas, conhecida como Jessica, publicava conteúdos de alto engajamento defendendo a independência da Escócia. Assim que a posição geográfica foi revelada, no próprio Irã, o perfil foi desativado.
Para Rashidi, a ferramenta não é perfeita, mas aumenta a transparência, especialmente entre usuários de língua persa, onde discussões políticas costumam ser intensas. Ao revelar detalhes básicos de conexão, o recurso ajuda a distinguir opiniões legítimas de ações coordenadas para manipular debates.
O controle do governo iraniano sobre o ambiente digital permanece rígido. Plataformas como Instagram, Facebook, X, YouTube, Telegram e WhatsApp seguem bloqueadas, enquanto o uso de VPNs é proibido. A Freedom House aponta, em seu relatório de 2025, que o país continua ampliando barreiras ao acesso global à internet, estimulando a dependência de uma rede doméstica monitorada de perto pelo Estado.