Regime do Irã condiciona libertação de presos políticos a atos públicos de lealdade, dizem famílias

Organizações de direitos humanos afirmam que mais de 12 mil iranianos foram presos após protestos de janeiro. Famílias relatam pressão para participar de marchas pró-governo e gravar vídeos de apoio ao regime

O regime do Irã teria condicionado a libertação ou a redução de penas de manifestantes presos à participação de seus familiares em atos públicos de apoio ao governo. Segundo relatos de organizações de direitos humanos, parentes de detidos foram pressionados a comparecer às comemorações do 47º aniversário da Revolução Islâmica e a gravar vídeos demonstrando lealdade ao Estado. As informações são da CBS News.

De acordo com a organização Bazdasht Shodegan, formada por ex-prisioneiros iranianos, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) e o Ministério da Inteligência teriam entrado em contato com famílias de presos políticos oferecendo o que o grupo classificou como “um dilema desumano”: participar das marchas pró-regime ou colocar em risco a vida dos filhos.

Manifestantes pró-regime em ato em janeiro de 2026 (Foto: WikICommons)
Mais de 12 mil presos após protestos no Irã

Entidades que monitoram a situação dos direitos humanos no Irã afirmam que mais de 12 mil pessoas foram presas em meio à onda de protestos que se espalhou pelo país no início de janeiro. Muitos dos detidos enfrentam longas penas de prisão e, em alguns casos, risco de pena de morte.

Segundo os relatos, as famílias foram informadas de que a presença nas celebrações oficiais organizadas pelo governo seria interpretada como prova pública de lealdade. Além disso, teriam recebido instruções para gravar vídeos declarando apoio ao regime iraniano e enviá-los aos serviços de segurança.

Pressão sobre familiares de manifestantes

A prática de pressionar familiares de dissidentes não é inédita no Irã. Organizações de direitos humanos afirmam que o regime tem histórico de utilizar familiares como forma de coerção política.

Em nota, a Bazdasht Shodegan, que oferece apoio online a detentos e suas famílias e denuncia violações de direitos humanos no Irã, declarou que o método cria “um ciclo completo de tortura mental e física”, ao combinar supostas confissões forçadas de presos com a exigência de manifestações públicas de apoio por parte das famílias.

Caso de empresário amplia repercussão

Um dos casos que ganharam destaque envolve o empresário Mohamed Saedinia, conhecido por administrar uma rede de confeitarias e cafés frequentados por jovens em Teerã. No início dos protestos no Irã, ele fechou temporariamente suas lojas e publicou mensagem nas redes sociais demonstrando solidariedade a outros comerciantes.

Posteriormente, Saedinia foi preso com o filho, acusado de apoiar os manifestantes. Nesta semana, a agência semioficial Fars divulgou uma declaração atribuída ao empresário, na qual ele pede desculpas e afirma que participará das celebrações da Revolução Islâmica, declarando obediência ao líder do país.

Organizações apontam intimidação política

Para entidades internacionais, a divulgação pública de retratações e declarações de apoio ao regime funciona como ferramenta de intimidação política. Especialistas em direitos humanos avaliam que tais práticas têm como objetivo desestimular novas manifestações e reforçar o controle estatal após os recentes protestos contra o governo iraniano.

A situação dos presos políticos no Irã segue sendo acompanhada por organizações internacionais, enquanto cresce a pressão por transparência e respeito aos direitos humanos no país.

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