Um relatório encomendado pela Fifa (Federação Internacional de Futebol) omitiu propositalmente abusos de direitos humanos na Arábia Saudita a fim de endossar a candidatura do país a sede da Copa do Mundo de futebol de 2034. A afirmação é da ONG Anistia Internacional.
“Está claro há mais de um ano que a Fifa está determinada a remover todos os obstáculos potenciais para garantir que possa entregar a Copa do Mundo de 2034 ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman”, afirmou James Lynch, codiretor da FairSquare, uma entre 11 entidades que denunciaram as falhas no relatório.
O documento foi elaborado pela empresa de advocacia AS&H Clifford Chance, um braço do escritório londrino Clifford Chance. As falhas do relatório foram denunciadas por 11 organizações globais, segundo as quais a omissão “deixa o escritório global em risco de ser vinculado a abusos resultantes do torneio.”

Entre os denunciantes estão a organização de defesa da diáspora da Arábia Saudita ALQST, grupos de direitos humanos do Golfo Pérsico, organizações trabalhistas, a rede de torcedores Football Supporters Europe e as ONGS Anistia Internacional e Human Rights Watch (HRW).
“AS&H Clifford Chance teve a chance de escrever uma avaliação confiável de riscos que são relevantes para a Copa do Mundo de 2034. Em vez disso, eles produziram uma perspectiva artificialmente limitada, enganosa e excessivamente positiva”, declarou Julia Legner, diretora executiva da ALQST para os direitos humanos
Segundo os denunciantes, a empresa de advocacia concordou em excluir da análise o histórico da Arábia Saudita em vários direitos humanos críticos, como liberdade de expressão, discriminação LGBT e proibição de sindicatos. “Qualquer avaliação que não reconheça esses riscos relevantes aos direitos humanos para uma Copa do Mundo na Arábia Saudita não pode ser considerada confiável”, dizem.
O escritório também é acusado de ter sido seletivo ao avaliar denúncias feitas por órgãos como a ONU (Organização das Nações Unidas), deixando de fora julgamentos prejudiciais ao regime saudita como os de tortura e outros maus-tratos em prisões.
“Não há evidências de que a AS&H Clifford Chance tenha consultado especialistas externos, como pessoas que podem ser afetadas por abusos de direitos humanos ligados ao torneio, especialistas ou organizações de direitos humanos da Arábia Saudita, organizações internacionais de direitos humanos ou sindicatos”, acrescentam as 11 entidades.
Apesar dos apelos globais contra a escolha do país, a Arábia Saudita conquistou em outubro de 2023 o direito de sediar em 2034 o maior torneio de futebol do planeta.