Síria inicia devolução de propriedades a judeus e abre caminho para retorno histórico da comunidade

Após décadas de exílio quase total, governo sírio transfere controle de sinagogas e imóveis judaicos e sinaliza reaproximação com minorias religiosas

A Síria deu início a um processo inédito de restituição de propriedades pertencentes à antiga comunidade judaica do país, quase totalmente ausente desde o início da década de 1990. A iniciativa envolve a devolução de sinagogas, escolas religiosas e imóveis privados que ficaram sob controle do Estado após a saída dos judeus sírios durante o regime de Hafez al-Assad. As informações são da NPR.

O movimento ganhou força em dezembro de 2025, quando o governo sírio autorizou a criação de uma fundação de preservação do patrimônio judaico, liderada pelo sírio-americano Henry Hamra. A entidade passou a administrar oficialmente locais religiosos judaicos em cidades históricas como Aleppo e Damasco, além de colaborar na identificação e restauração de propriedades privadas.

Sinagoga Central de Aleppo, também conhecida como Sinagoga al-Bandara (Foto: WikiCommons)

Aleppo, no norte da Síria, foi durante séculos um dos principais centros da vida judaica no Oriente Médio, com uma presença que remonta a pelo menos dois mil anos. Antes da criação do Estado de Israel, em 1948, estima-se que cerca de 30 mil judeus viviam no país. Apesar de poderem praticar sua religião, estavam sujeitos às mesmas restrições políticas impostas à população em geral.

A partir de 1992, quando o regime sírio suspendeu restrições de viagem específicas para judeus, a maioria deixou o país de forma definitiva. Muitos não conseguiram vender suas casas, que acabaram ocupadas por terceiros ou incorporadas ao patrimônio estatal. Com a saída do último rabino, a vida religiosa judaica na Síria praticamente desapareceu.

Atualmente, restam apenas seis judeus sírios vivendo no país, todos idosos. Ainda assim, a devolução das propriedades reacendeu o debate sobre um possível retorno simbólico da comunidade, ao menos para visitas, preservação histórica e reconexão cultural.

O governo do presidente Ahmed al-Sharaa afirma que a restituição das propriedades religiosas judaicas faz parte de um esforço mais amplo para garantir direitos às minorias e reconstruir a imagem internacional da Síria após o fim da guerra civil, encerrada em 2024. A medida também ocorre em meio ao levantamento de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos.

Embora haja ceticismo entre parte da diáspora judaica síria quanto às garantias de segurança, líderes comunitários veem o gesto como um marco histórico. Para eles, mais do que um retorno em massa, o processo representa o reconhecimento oficial de uma herança apagada por décadas de conflito, repressão e exílio.

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