Caminhões parados, frutas apodrecendo e prejuízo bilionário: a crise fronteiriça entre Afeganistão e Paquistão

Fechamento de passagens fronteiriças há quase dois meses deixa milhares de caminhões retidos, encarece alimentos e ameaça cadeias produtivas nos dois países

A escalada de tensões diplomáticas entre Afeganistão e Paquistão evoluiu para uma guerra comercial que já provoca impactos econômicos severos dos dois lados da fronteira. O fechamento das principais passagens fronteiriças, iniciado em outubro, mantém cerca de 8 mil caminhões parados e interrompe rotas vitais de abastecimento, elevando custos, reduzindo exportações e comprometendo a renda de agricultores, comerciantes e transportadores. As informações são da Radio Free Europe.

O bloqueio ocorre após confrontos armados na região fronteiriça, desencadeados por ataques aéreos paquistaneses em território afegão. Islamabad acusa o governo talibã de abrigar militantes do Tehrik-e Taliban Pakistan (TTP), popularmente conhecido como Taleban do Paquistão, grupo responsável por ataques que mataram dezenas de soldados do Paquistão. Em resposta, os talibãs retaliaram com o fechamento de passagens comerciais estratégicas, aprofundando o impasse.

Vista do Paquistão a partir da fronteira com o Afeganistão, no Portão de Torkham (Foto: WikiCommons)

Antes da crise, o comércio bilateral entre Afeganistão e Paquistão movimentava entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões por ano, segundo dados da Câmara Conjunta de Comércio e Indústria Paquistão-Afeganistão. O Paquistão exportava principalmente produtos industriais, alimentos, cimento e medicamentos, enquanto o Afeganistão fornecia frutas frescas e secas, além de utilizar o território paquistanês como rota de trânsito para importações.

Com a fronteira fechada, caminhoneiros enfrentam semanas de espera em regiões montanhosas, sob frio intenso e sem infraestrutura adequada. A paralisação das rotas elevou os preços de alimentos em cidades afegãs e gerou excedentes agrícolas no Paquistão, vendidos a valores inferiores no mercado interno. Apenas o setor de cítricos paquistanês estima perdas superiores a US$ 50 milhões nesta temporada.

Os efeitos também são visíveis em centros comerciais como Peshawar, onde mercados tradicionais, incluindo o de pedras preciosas, operam com grande parte das lojas fechadas. O setor depende de minerais extraídos no Afeganistão, cuja entrada foi interrompida com o bloqueio.

Diante do impasse, o governo afegão busca diversificar parceiros comerciais e anunciou acordos para ampliar rotas com Irã, países da Ásia Central e Índia. Especialistas, porém, avaliam que grandes projetos regionais continuam dependentes da cooperação com Islamabad. Iniciativas como o gasoduto Turcomenistão–Afeganistão–Paquistão–Índia (TAPI) e corredores de energia e transporte seguem travadas pela instabilidade política e pela falta de diálogo entre os dois países.

Analistas alertam que, sem uma solução diplomática, as perdas tendem a se tornar permanentes. Comerciantes dos dois lados afirmam que já não conseguem absorver novos prejuízos, enquanto cadeias produtivas inteiras correm risco de colapso.

Tags: