Mulheres sem véu e música pop marcam funerais de manifestantes no Irã

Famílias transformam enterros em celebrações públicas e desafiam normas religiosas impostas pela teocracia iraniana

Funerais de manifestantes mortos durante os recentes protestos no Irã têm se transformado em atos públicos de resistência ao regime islâmico. Em diversas cidades do país, familiares e amigos substituíram cerimônias tradicionais e solenes por eventos marcados por música pop, dança e celebrações da vida, em um gesto interpretado por analistas como desafio direto à cultura de piedade exigida pela teocracia. As informações são do The Guardian.

Segundo relatos reunidos por veículos internacionais, muitos corpos só foram liberados pelas autoridades após o pagamento de altas quantias às famílias. Em alguns casos, parentes foram obrigados a assinar declarações afirmando que os mortos pertenciam à Basij, milícia pró-regime. A estratégia busca reforçar a narrativa oficial de que os manifestantes seriam “terroristas” e inflar os números de baixas atribuídas às forças governistas.

Pessoas seguram cartazes durante funeral de manifestantes mortos em protestos contra o regime no Irã (Foto: Wikimedia Commons)

Estimativas independentes apontam que ao menos 30 mil pessoas morreram desde o início das manifestações, no final de dezembro, embora outros levantamentos indiquem números ainda mais elevados. O governo iraniano não divulga dados consolidados sobre as mortes.

Especialistas afirmam que o clima observado nos funerais carrega forte simbolismo político. Em vez do luto religioso tradicional, as cerimônias têm sido marcadas por cenas de euforia, incluindo mulheres sem o véu islâmico, dançando e cantando em público, práticas proibidas ou severamente restringidas pelo regime.

O sociólogo Saeed Paivandi, da Universidade de Lorraine, na França, avalia que esses rituais representam uma forma de resistência cultural. Segundo ele, cerimônias de luto passaram a funcionar como espaços de contestação às normas religiosas e oficiais, com o uso da música e da dança ocupando um papel central na mensagem política transmitida.

Casos individuais reforçam esse padrão. Em Teerã, familiares de um adolescente morto durante um protesto organizaram um funeral ao som de sua música favorita, enquanto parentes relataram que a preparação do evento se assemelhou a uma celebração de casamento. Em depoimentos, familiares afirmaram que a intenção não era negar a dor da perda, mas honrar a forma como as vítimas viveram.

A prática ganhou ainda mais força após a execução de Majidreza Rahnavard, em 2022, acusado de envolvimento em protestos do movimento “Mulher, Vida, Liberdade”. Antes de morrer, ele pediu que não houvesse orações ou leituras do Alcorão em seu túmulo, mas sim celebração e música. Desde então, suas palavras passaram a ser citadas por opositores do regime como um símbolo de resistência.

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