EXCLUSIVO: “Não há abrigos nem alertas”, diz diretor do CHRI sobre vulnerabilidade de civis no Irã

Em entrevista exclusiva, Hadi Ghaemi afirma que, além dos bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel, a repressão interna do regime iraniano e o bloqueio da internet agravam a crise humanitária em Irã, onde os ataques já deixaram mais de 1,2 mil mortos

Por André Amaral

A escalada da guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos disparou o temor de uma crise humanitária no Oriente Médio. Além dos bombardeios contra cidades e instalações estratégicas – e do risco crescente para áreas urbanas – civis iranianos também têm de lidar com a repressão interna do próprio regime, marcada por prisões arbitrárias, detenções em locais secretos e pesadas restrições de comunicação.

Em entrevista exclusiva para A Referência, Hadi Ghaemi, diretor-executivo do Centro Internacional para Direitos Humanos (CHRI, da sigla em inglês), uma organização independente sediada em Nova York, afirmou que civis iranianos estão expostos a perigos cada vez maiores à medida que o conflito se intensifica.

“Estamos profundamente preocupados com os civis no Irã e com os graves riscos que enfrentam à medida que o conflito militar continua”, afirmou. Até o momento, os ataques na República Islâmica já deixaram 1.230 mortos, de acordo com dados divulgados nesta terça-feira (10) pelo grupo humanitário Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano.

Ataque a áreas residenciais na cidade iraniana de Kermanshah, em março de 2026 (Foto: WikiCommons)

Segundo ele, os ataques já atingiram áreas residenciais e escolas, além de instalações petrolíferas que, quando bombardeadas, podem gerar riscos ambientais e sanitários para a população.

O alerta ocorre em meio a episódios que evidenciam o impacto do conflito sobre civis. Um dos casos mais graves foi o ataque a uma escola primária em Minab, no sul do Irã, em 28 de fevereiro de 2026, durante bombardeios que atingiram o país. O ataque matou mais de 165 pessoas, a maioria meninas entre 7 e 12 anos, tornando-se um dos episódios com maior número de vítimas civis desde o início da guerra. Na sexta-feira (6), o jornal The New York Times disse que Washington provavelmente foi responsável pela destruição, usando como base uma análise com imagens de satélite, vídeos e reportagens.

Para Ghaemi, episódios como esse demonstram como civis acabam expostos quando alvos militares são localizados próximos a áreas urbanas.

“Muitos escritórios governamentais, delegacias e centros da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) estão localizados em áreas residenciais. Como esses locais são considerados alvos militares, o risco para os civis ao redor é real”, explicou.

Sem abrigos ou alertas

Outro fator que aumenta o perigo para a população, segundo o diretor do CHRI, é a ausência de estruturas de proteção civil no país.

“Como vimos em conflitos recentes, no Irã não existem medidas de segurança pública como abrigos ou sirenes de alerta. Isso aumenta significativamente o risco de civis serem atingidos durante ataques”, disse.

Funeral das mais de 150 mortos em uma escola primária na cidade de Minab (Foto: WikiCommons)

Diante da intensificação dos bombardeios, milhares de pessoas deixaram a capital, Teerã, e outras cidades em busca de segurança.

“Grandes números de iranianos estão fugindo das áreas atacadas. Sem corredores seguros e sem acesso garantido a abrigo, água, alimentos e atendimento médico, essas pessoas enfrentam riscos ainda maiores”, afirmou Ghaemi.

Segundo o diretor do CHRI, a criação de corredores humanitários é essencial para reduzir o impacto da guerra sobre a população.

“Corredores seguros são necessários para que civis possam evacuar cidades sem se tornarem alvos e tenham acesso a necessidades básicas”, disse.

Presos políticos em risco

Outro ponto de preocupação destacado por Ghaemi é a situação de prisioneiros políticos e detidos no país. Ele afirma que muitos não estão em prisões oficiais, mas em instalações ligadas a órgãos de segurança ou polícia.

“Em muitos casos, os detidos não estão em centros de detenção formais, mas em instalações locais de segurança que podem se tornar alvos durante ataques, porque as partes envolvidas no conflito talvez nem saibam que há prisioneiros ali”, explicou.

(Foto: Centro para os Direitos Humanos no Irã/Reprodução)

A situação é ainda mais preocupante para manifestantes desaparecidos em meio a repressões das forças de segurança iranianas.

“Há milhares de pessoas detidas em instalações secretas, conhecidas como “caixas-pretas”, cujos paradeiros nem sequer são conhecidos. Isso significa que podem ser atingidas em ataques aéreos sem que ninguém saiba que estavam ali”, disse.

Além do risco de ataques, o diretor do CHRI teme que detidos sejam alvo de violência retaliatória dentro do próprio sistema prisional iraniano.

“A República Islâmica tem um histórico documentado de usar momentos de guerra ou crise para cometer abusos nas prisões e retaliar contra prisioneiros políticos”, afirmou.

Entidades que monitoram a situação dos direitos humanos no Irã afirmam que mais de 12 mil pessoas foram presas em meio à onda de protestos que se espalhou pelo país no início de janeiro. Muitos dos detidos enfrentam longas penas de prisão.

A mobilização que resultou nessas prisões foi desencadeada pelo colapso da moeda iraniana e pelo aumento do custo de vida, mas especialistas apontam que as causas são mais profundas. Entre os principais fatores estão as imposições religiosas do regime, como o uso obrigatório do hijab, a corrupção e a má gestão econômica sob sanções internacionais, além do elevado investimento de Teerã no financiamento de grupos armados aliados no Oriente Médio, como o Hezbollah.

“Inimigos do Estado”

De acordo com Ghaemi, o CHRI está profundamente preocupado com o uso renovado de acusações vagas e infundadas de “segurança nacional” e “espionagem”, táticas já usadas durante a guerra de 12 dias em junho de 2025, “para justificar sentenças severas como forma de aterrorizar a população e suprimir a dissidência”.

O diretor-executivo da ONG mencionou falas de Gholam-Hossein Mohseni Ejei, chefe do Judiciário da República Islâmica, que são consideradas especialmente alarmantes. Em 4 de março, Ejei afirmou que qualquer pessoa que aja ou se manifeste contra o Estado “será considerada inimiga”.

Destruição após ataque israelense em algumas áreas de Teerã em junho de 2025, durante a guerra de 12 dias (Foto: WikiCommons)

O CHRI destaca que uma retórica semelhante já havia sido utilizada pelas autoridades iranianas em janeiro de 2026 para rotular manifestantes como “inimigos do Estado”, episódio que resultou na morte de milhares de pessoas durante repressões a protestos.

Segundo a organização, Ejei também determinou que os tribunais atuassem “sem leniência” contra dezenas de milhares de pessoas presas arbitrariamente, o que pode resultar na imposição de penas severas – incluindo a pena de morte.

Internet bloqueada

A situação é agravada pelo bloqueio da internet no país, que dificulta a comunicação entre famílias e impede o acesso a informações sobre segurança.

“O apagão da internet tornou extraordinariamente difícil para os iranianos se comunicarem entre si”, afirmou Ghaemi.

Segundo ele, a falta de comunicação impede que civis recebam ordens de evacuação ou saibam o que está acontecendo em diferentes regiões.

“O bloqueio também permite que abusos contra civis, detidos e prisioneiros ocorram sem que o mundo saiba”, acrescentou.

Relatórios do CHRI indicam que, mesmo antes da guerra, autoridades iranianas já realizavam prisões em massa e detenções arbitrárias durante protestos, com milhares de pessoas presas e muitas mantidas em locais desconhecidos.

Apelo à comunidade internacional

Diante da escalada do conflito, o CHRI pede que todas as partes envolvidas respeitem o direito humanitário internacional. Para Ghaemi, a proteção de civis deve ser prioridade absoluta em qualquer conflito.

A CHRI insta todas as partes envolvidas no conflito a respeitarem o direito internacional humanitário, nomeadamente a Convenção de Genebra de 1949 e os protocolos adicionais, que estabelecem proteções claras para os civis durante conflitos armados, proibindo ataques contra civis, ataques indiscriminados e a utilização de armas ou táticas que causem danos desproporcionais às populações civis.

Ataque a Kermanshah, em março de 2026 (Foto: WikiCommons)

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