O documentário ‘Um Zé Ninguém Contra Putin’, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2026, entrou no centro do debate político internacional após o Kremlin afirmar que não assistiu ao filme e, por isso, não comentaria sua vitória. As informações são do The Moscow Times.
A declaração foi feita pelo porta-voz do governo russo, Dmitry Peskov, que disse a jornalistas que seria necessário conhecer o conteúdo da obra antes de emitir qualquer avaliação.
“É preciso, no mínimo, entender do que se trata antes de comentar, então vou me abster de fazer qualquer comentário por enquanto”, afirmou.

O longa, originalmente intitulado ‘Mr. Nobody Against Putin’, foi premiado no Academy Awards 2026 e aborda a doutrinação ideológica de crianças em escolas russas durante a guerra na Ucrânia.
Documentário mostra bastidores de escola na Rússia
O filme foi codirigido por Pavel Talankin, ex-videógrafo escolar da região de Chelyabinsk. Ele registrou imagens dentro de uma escola na cidade de Karabash enquanto trabalhava produzindo vídeos institucionais.
Segundo o próprio diretor, parte das gravações foi preservada secretamente antes de ele deixar a Rússia em 2024. Atualmente, Talankin vive na República Tcheca.
As imagens mostram atividades escolares e diretrizes oficiais que incentivavam a promoção de símbolos patrióticos e narrativas alinhadas ao Estado russo durante o conflito na Ucrânia.
A ideia do documentário surgiu depois que o Ministério da Educação russo começou a emitir orientações sobre canções, poemas e rituais patrióticos que deveriam ser filmados e divulgados oficialmente.
Estreia em festivais e prêmios internacionais
Além da vitória no Oscar, o filme já havia conquistado reconhecimento em festivais internacionais. A produção estreou no Festival de Cinema de Sundance e também foi exibida no Festival de Cinema de Gotemburgo.
O documentário ainda venceu o prêmio de Melhor Documentário no BAFTA Awards, concedido pela British Academy of Film and Television Arts.
O projeto também contou com a direção do cineasta americano David Borenstein, que disse ter procurado contextualizar as imagens gravadas por Talankin dentro de temas mais amplos, como liberdade de expressão e propaganda política.
Discurso no Oscar citou guerras e responsabilidade moral
Durante o discurso de agradecimento na cerimônia do Oscar, Talankin pediu o fim dos conflitos militares ao redor do mundo.
“Em nome do nosso futuro, em nome de todas as nossas crianças, parem com todas essas guerras agora”, afirmou o diretor.
Já Borenstein traçou paralelos entre a Rússia em tempos de guerra e os Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, alertando para o papel da sociedade diante de decisões políticas.
“Você perde seu país por meio de inúmeros pequenos atos de cumplicidade”, disse o cineasta. “Todos nós enfrentamos uma escolha moral. Mas, felizmente, até mesmo um ninguém é mais poderoso do que você imagina.”
Cobertura limitada na Rússia
Na Rússia, veículos estatais noticiaram a cerimônia do Oscar, mas sem mencionar a vitória do documentário. Já as principais emissoras de televisão do país ignoraram completamente o evento.
A repercussão internacional da obra, porém, ampliou o debate sobre educação, propaganda estatal e liberdade de expressão em contextos de conflito.