Fé e poder: Rússia usa religião como estratégia na África

Expansão religiosa em mais de 30 países é vista por especialistas como estratégia de soft power de Moscou

A expansão da Igreja Ortodoxa Russa na África tem chamado atenção de analistas internacionais e especialistas em geopolítica. Nos últimos anos, a instituição religiosa ampliou sua presença no continente, estabelecendo centenas de paróquias e consolidando influência em regiões estratégicas, movimento que vai além da fé e se conecta diretamente aos interesses do Estado russo. As informações são da Deutsche Welle.

De acordo com dados da própria igreja, já são cerca de 350 paróquias distribuídas em mais de 30 países africanos. Na República Centro-Africana, por exemplo, o crescimento é visível. Fiéis locais têm migrado de outras denominações cristãs para a ortodoxia russa, atraídos pela liturgia, pelos ensinamentos e pela atuação da igreja na comunidade.

Mesmo com celebrações realizadas em russo, a presença de intérpretes facilita a adesão dos novos membros. O resultado é a formação de comunidades que, embora inspiradas na tradição religiosa russa, passam a se inserir no contexto africano.

Casamento dentro de uma igreja ortodoxa etíope (Foto: WikiCommons)

No entanto, especialistas alertam que esse avanço não pode ser analisado apenas sob o ponto de vista religioso. Para estudiosos como a teóloga Regina Elsner, a atuação da Igreja Ortodoxa Russa faz parte de uma estratégia mais ampla de “soft power”, ou poder brando, utilizada pela Rússia para ampliar sua influência global.

Segundo essa visão, a igreja funciona como uma ferramenta complementar à política externa russa, especialmente em regiões onde há espaço para disputas de influência com países ocidentais. Desde a década de 1950, há registros de colaboração entre o Estado russo e a instituição religiosa, relação que se intensificou nos últimos anos.

Na África, esse processo ganhou força a partir de 2022, com a criação de uma estrutura eclesiástica própria e a tentativa de se consolidar como a principal referência da ortodoxia no continente. Esse movimento também gerou tensão com o Patriarcado de Alexandria, historicamente responsável pela presença ortodoxa na África.

A ruptura entre as igrejas ocorreu em 2019, após o reconhecimento da Igreja Ortodoxa da Ucrânia independente pelo Patriarcado de Alexandria. Em resposta, Moscou rompeu relações e passou a disputar diretamente fiéis, clérigos e espaços religiosos no continente africano.

Além do fator religioso, a estratégia russa também se apoia em pautas políticas e sociais. A defesa de cristãos perseguidos em regiões de conflito e o discurso contrário ao que é chamado de “colonialismo liberal ocidental” têm gerado identificação com grupos religiosos africanos, fortalecendo a imagem da Rússia como aliada.

Por outro lado, críticos apontam que a expansão pode provocar instabilidade interna nas comunidades locais. Há relatos de que a Igreja Ortodoxa Russa estaria atraindo líderes religiosos e fiéis por meio de incentivos materiais, o que aumentaria tensões e divisões dentro da ortodoxia africana.

Mesmo com um número ainda relativamente pequeno de seguidores, o impacto da presença russa é considerado relevante. Analistas avaliam que a combinação entre religião, política e estratégia internacional transforma a Igreja Ortodoxa Russa em um importante instrumento de influência no cenário global contemporâneo.

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