Guerra no Irã pode destravar megagasoduto entre Rússia e China e redesenhar o mapa energético

Guerra no Irã e crise no Estreito de Ormuz podem acelerar acordo entre China e Rússia para o gasoduto Poder da Sibéria-2 e mudar o mercado global de energia

A guerra no Irã e seus impactos no fornecimento global de energia voltaram a colocar em evidência um projeto estratégico que parecia estagnado: o gasoduto Poder da Sibéria 2, um projeto que deve consolidar o papel de Beijing como o cliente de energia mais importante de Moscou, que busca substituir os mercados europeus perdidos. Em meio ao fechamento do Estreito de Ormuz e à interrupção do fluxo de petróleo e gás natural liquefeito (GNL), a China reavalia sua segurança energética e pode acelerar negociações com a Rússia. As informações são da Radio Free Europe.

O bloqueio da principal rota marítima de energia do mundo expôs a vulnerabilidade chinesa. Atualmente, cerca de 40% do petróleo importado pelo país e 30% do GNL passam pela região. Com os ataques envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, e a consequente paralisação parcial das exportações do Catar – responsável por uma fatia relevante do fornecimento global – os preços do gás dispararam na Ásia e na Europa.

Imagem meramente ilustrativa gerada por IA

Diante desse cenário, o interesse chinês por rotas terrestres ganha força. O projeto Poder da Sibéria-2 prevê a construção de um gasoduto de aproximadamente 2.600 quilômetros, conectando os campos de gás da península de Yamal, na Rússia, ao território chinês, via Mongólia. A obra permitiria reduzir a dependência de rotas marítimas e garantir maior previsibilidade no abastecimento.

Analistas avaliam que a crise energética provocada pelo conflito pode ser o gatilho para destravar o projeto. Quanto mais prolongada for a interrupção no fornecimento global de GNL e quanto mais elevados forem os preços, maior tende a ser a atratividade do gasoduto para Beijing.

Ainda assim, o avanço do acordo esbarra em impasses antigos. China e Rússia divergem sobre o preço do gás, o volume a ser contratado e a divisão dos custos da obra. Beijing pressiona por valores próximos aos praticados no mercado interno russo, altamente subsidiado, e demonstra cautela para não se tornar excessivamente dependente de Moscou.

Do lado russo, o projeto é visto como essencial. Após a queda nas exportações de gás para a Europa desde a invasão da Ucrânia em 2022, o Kremlin busca novos mercados para compensar perdas bilionárias. O Poder da Sibéria-2 surge como peça-chave dessa estratégia de reorientação energética.

Enquanto as negociações seguem, a China tenta ganhar tempo. O país ampliou estoques estratégicos de petróleo, diversificou fornecedores e vem reduzindo a demanda interna com o avanço dos veículos elétricos. Além disso, Beijing investe em alternativas como o aumento da produção doméstica e novas parcerias com países da Ásia Central, como o Turcomenistão.

Outro projeto relevante é o gasoduto do Extremo Oriente Rússia-China, com previsão de operação a partir de 2027, o que amplia as opções chinesas no curto prazo.

Apesar disso, especialistas apontam que a decisão final dependerá de dois fatores principais: preço competitivo e flexibilidade contratual. Caso Moscou aceite concessões, o Poder da Sibéria-2 pode deixar de ser um plano distante para se tornar um dos pilares da segurança energética chinesa nas próximas décadas.

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