Dois cidadãos russos, Igor Ratchin, consultor político, e Lev Lakshtanov, tradutor, junto com dois angolanos, o jornalista esportivo Amor Carlos Tomé e o ativista Francisco Oliveira, estão sendo julgados em Luanda por suposta tentativa de incitar protestos antigovernamentais, conduzir campanha de desinformação e interferir nas eleições presidenciais angolanas de 2027. As informações são da AOL.
Presos em agosto de 2025, Ratchin e Lakshtanov enfrentam 11 acusações, incluindo terrorismo, espionagem e tráfico de influência. A acusação aponta que eles agiam em nome da Africa Politology, uma rede de agentes e ex-membros do extinto Wagner Group, cujo fundador, Yevgeny Prigozhin, morreu em 2023 em um acidente de avião.
A defesa nega qualquer vínculo com a rede ou com o Estado russo, afirmando que os russos estavam apenas envolvidos na criação da “Casa Russa”, um projeto cultural em Luanda.

Segundo os procuradores angolanos, entre 2024 e 2025, os réus fizeram pagamentos a jornalistas e especialistas locais — mais de US$ 24 mil (cerca de R$ 123,5 mil) no total — para publicar propaganda e desinformação em veículos de comunicação do país, com o objetivo de “provocar mudanças políticas”. Entre as publicações citadas estão críticas ao Corredor de Lobito, projeto ferroviário estratégico financiado pelo Ocidente, e alertas sobre o possível envolvimento de Angola na guerra na Ucrânia.
A acusação também indica que Ratchin e Lakshtanov teriam se reunido com políticos influentes do MPLA e da Unita, oferecendo apoio financeiro e estratégico. Entre eles, o general Higino Carneiro, do MPLA, e Adalberto Costa Júnior, líder da Unita, considerados potenciais candidatos à presidência. Não há, contudo, provas documentais dessas alegações.
Os dois angolanos acusados, Tomé e Oliveira, teriam auxiliado na operação, coletando informações sobre o cenário político e apresentando políticos aos russos. As defesas alegam que não há evidências que comprovem qualquer crime, e que os réus eram, na prática, participantes de projetos culturais e jornalísticos legítimos.
Especialistas internacionais alertam que o maior desafio da acusação será demonstrar que as ações configuram um padrão deliberado de subversão política, e não atos isolados ou interpretações equivocadas de atividades cotidianas de jornalistas e consultores. Uma fonte diplomática russa disse à BBC que os acusados não atuavam oficialmente pelo Estado russo, e que Moscou não vê motivo para intervir.
O caso ocorre após os protestos de julho de 2025, os mais violentos em Angola desde o fim da guerra civil entre MPLA e Unita em 2002. O movimento começou como greve de taxistas e evoluiu para uma onda de manifestações em todo o país, resultando em 29 mortes e mais de 1.200 detidos. Pesquisadores da Human Rights Watch afirmam que os protestos foram motivados por insatisfação social e econômica, e não por uma operação estrangeira.
Angola, rico em petróleo e diamantes, sempre teve um papel estratégico para Moscou, mas nas últimas décadas tem se aproximado do Ocidente. Empresas russas como Alrosa e o banco VTB deixaram o país após sanções internacionais impostas devido à guerra na Ucrânia, e o presidente João Lourenço não se encontra com Vladimir Putin desde 2019.