Amazônia mais inundada e sul mais seco: pesquisa revela mudança preocupante no clima da América do Sul

Pesquisa com dados de 95 bacias hidrográficas mostra que extremos climáticos estão se intensificando no continente, mesmo sem aumento significativo na circulação total de água

Um estudo internacional publicado na revista científica Communications Earth & Environment concluiu que o ciclo da água na América do Sul não apresentou aceleração significativa nas últimas décadas, contrariando uma das hipóteses mais difundidas sobre os impactos do aquecimento global. Apesar disso, eventos extremos como enchentes na Amazônia e secas na Bacia do Prata tornaram-se mais intensos. As informações são da Earth.

A pesquisa analisou registros de 95 bacias hidrográficas distribuídas por quase dois terços do continente, abrangendo mais de 9,8 milhões de quilômetros quadrados. Os dados cobrem o período entre 1980 e 2010 e revelam que, embora as temperaturas tenham aumentado, indicadores como precipitação, vazão dos rios e evaporação permaneceram relativamente estáveis.

Segundo os pesquisadores, a expectativa era encontrar evidências de um ciclo hidrológico mais acelerado devido ao aquecimento global. No entanto, os resultados mostraram que a quantidade total de água circulando pelo continente praticamente não mudou ao longo das três décadas analisadas.

Rio Urubu, Amazonas, Brasil (Foto: WikiCommons)
Amazônia registra cheias mais intensas

Na Bacia Amazônica, os cientistas observaram um aumento da intensidade das chuvas durante os períodos mais úmidos do ano. Como consequência, os rios passaram a registrar cheias mais frequentes e severas, ampliando os impactos sobre comunidades ribeirinhas e áreas urbanas.

Os pesquisadores associam esse fenômeno a mudanças nos padrões atmosféricos e oceânicos que influenciam o transporte de umidade para a região. O resultado é uma estação chuvosa mais intensa, elevando os riscos de inundações.

Secas avançam no sul do continente

Enquanto a Amazônia enfrenta mais enchentes, a Bacia do Rio da Prata apresenta uma tendência oposta. Os períodos secos estão ficando mais rigorosos, reduzindo a vazão dos rios e aumentando a pressão sobre o abastecimento de água.

O estudo aponta que o aumento das temperaturas favorece a evapotranspiração, processo pelo qual a água retorna à atmosfera por meio da evaporação e da transpiração das plantas. Com menos água disponível nos rios, regiões agrícolas e centros urbanos ficam mais vulneráveis a crises hídricas.

Extremos crescem mesmo sem mais água circulando

Uma das principais conclusões do estudo é que os extremos climáticos podem se intensificar mesmo sem aumento da quantidade total de água em circulação. Em outras palavras, o problema não está necessariamente em haver mais água no sistema, mas na forma como ela está distribuída ao longo do tempo e do espaço.

Os cientistas destacam que áreas tradicionalmente úmidas tendem a ficar ainda mais úmidas durante os períodos chuvosos, enquanto regiões mais secas enfrentam estiagens cada vez mais severas.

Alerta para planejamento e gestão da água

Os resultados reforçam a necessidade de adaptação das políticas de gestão hídrica em toda a América do Sul. Obras de proteção contra enchentes, planejamento urbano e estratégias de segurança hídrica precisarão considerar cenários de eventos extremos mais frequentes e intensos.

Para os pesquisadores, a principal lição é que médias anuais podem mascarar mudanças importantes. Mesmo quando os indicadores gerais parecem estáveis, os impactos causados por enchentes e secas podem aumentar significativamente, exigindo monitoramento constante e medidas preventivas.

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