Menos postos, mais tomadas: como a China está reduzindo a dependência de petróleo

Queda nas vendas de gasolina e diesel surpreende analistas, reflete avanço dos veículos elétricos e pode impactar a demanda mundial por petróleo nos próximos anos

A China está consumindo menos combustíveis fósseis do que o esperado, em uma mudança que começa a influenciar o mercado global de petróleo. Dados recentes apontam uma queda acentuada na demanda por gasolina e diesel no maior importador mundial de petróleo, tendência impulsionada pela expansão dos veículos elétricos, pelo fortalecimento do transporte público e por mudanças no comportamento dos consumidores. As informações são da Reuters.

Segundo a reportagem, as vendas de gasolina da Sinopec, maior refinadora do mundo e operadora da maior rede de postos de combustíveis da China, caíram 8% em abril na comparação com o mesmo período do ano passado. As vendas de diesel recuaram 6% no mesmo intervalo.

Passageiros no metrô de Shenzhen (Foto: WikiCommons)

A redução no consumo ocorre em um momento de tensão no mercado energético internacional devido ao conflito envolvendo o Irã. Mesmo diante da alta dos preços dos combustíveis, os chineses continuam viajando, mas estão optando por alternativas menos dependentes do petróleo.

Dados do Ministério dos Transportes da China mostram que as viagens ferroviárias cresceram cerca de 10% em março e abril na comparação anual. Além disso, o uso de metrôs e táxis elétricos segue em expansão nas principais cidades do país.

Veículos elétricos aceleram transformação

O avanço da eletrificação da frota chinesa tem desempenhado papel central nessa mudança. Em abril, o volume de recargas de veículos elétricos aumentou 69% em relação ao mesmo mês de 2025, alcançando um recorde histórico, segundo a Aliança de Carregamento da China.

O crescimento da frota elétrica tem reduzido a dependência de combustíveis tradicionais e aumentado a flexibilidade da demanda energética do país. Analistas observam que a gasolina e o diesel se tornaram mais sensíveis a fatores econômicos e comportamentais, já que milhões de consumidores agora possuem alternativas de transporte.

Especialistas do JP Morgan apontam que muitos chineses passaram a priorizar opções mais econômicas diante da alta dos preços dos combustíveis e das passagens aéreas, migrando para meios de transporte movidos a eletricidade ou menos dependentes do petróleo.

Importações de petróleo despencam

A mudança também já afeta as compras externas de energia. As importações chinesas de petróleo bruto caíram 29% em maio, atingindo o menor nível dos últimos oito anos, com média de 7,8 milhões de barris por dia. Em abril, a redução já havia sido de 20%.

Parte dessa queda é explicada pelo uso de estoques acumulados anteriormente, mas analistas acreditam que as mudanças estruturais no padrão de consumo também estão contribuindo para a redução da demanda.

O cenário tem ajudado a aliviar a pressão sobre os preços internacionais do petróleo em meio às incertezas geradas pelos conflitos no Oriente Médio e pelas preocupações com o fornecimento global.

Crise imobiliária agrava queda do diesel

A demanda por diesel enfrenta ainda um desafio adicional: a prolongada crise do setor imobiliário chinês. A desaceleração da construção civil reduziu significativamente o consumo do combustível utilizado por caminhões, máquinas pesadas e equipamentos de obras.

Comerciantes do setor relataram que diversos projetos enfrentam dificuldades financeiras e reduziram suas compras de diesel. Em algumas regiões, empresas da construção civil também passaram a substituir veículos movidos a combustíveis fósseis por modelos elétricos.

Perspectivas para o mercado global

A Sinopec projeta uma queda próxima de 10% na demanda chinesa por gasolina, diesel e querosene de aviação durante o segundo e o terceiro trimestre de 2026.

Para analistas do setor energético, a principal dúvida agora é se essas mudanças representam apenas uma reação temporária aos preços elevados ou uma transformação permanente do mercado chinês.

Caso a tendência se consolide, a China poderá reduzir gradualmente sua dependência do petróleo, alterando o equilíbrio da demanda global e ampliando os desafios para refinarias e produtores de combustíveis fósseis em todo o mundo.

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