Considerada uma das referências mundiais em mobilidade por bicicleta, Bogotá quer agora se tornar também um exemplo de igualdade de gênero sobre duas rodas. A capital da Colômbia lançou uma série de ações para aumentar a participação das mulheres no ciclismo urbano, que ainda representam menos de um terço das viagens diárias realizadas de bicicleta na cidade. As informações são do The Guardian.
A meta da prefeitura é ambiciosa: alcançar a paridade entre homens e mulheres no uso da bicicleta até 2039. Atualmente, elas respondem por apenas 28% das viagens diárias, segundo a Pesquisa de Mobilidade de Bogotá de 2023.
Para atingir esse objetivo, o município amplia a malha cicloviária, reforça a segurança nos trajetos, recupera ciclovias degradadas e oferece aulas gratuitas para quem nunca aprendeu a pedalar. A estratégia busca eliminar barreiras históricas que afastam mulheres desse meio de transporte e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Mais bicicletas, menos carbono
Com cerca de 10 milhões de habitantes, Bogotá registra aproximadamente 900 mil deslocamentos de bicicleta todos os dias, o maior número da América Latina. O transporte, porém, continua sendo a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa da cidade, o que faz da bicicleta uma peça importante na estratégia climática da capital colombiana.
Segundo a secretária de Mobilidade de Bogotá, Claudia Díaz, aumentar o número de mulheres pedalando é fundamental para ampliar o uso desse modal.
“Nosso objetivo é passar da atual proporção, próxima de 30% de mulheres e 70% de homens, para uma divisão equilibrada de 50% para cada grupo.”
Além da redução das emissões, especialistas afirmam que ampliar a participação feminina torna os investimentos em mobilidade sustentável mais eficientes, reduz congestionamentos e melhora a qualidade do ar.
O que impede as mulheres de pedalar
Um estudo realizado durante a elaboração da política pública de ciclismo de Bogotá identificou os principais obstáculos enfrentados pelas mulheres.
O maior deles é a insegurança. Cerca de 60% das entrevistadas disseram evitar a bicicleta por medo de roubos ou agressões. Outras 40% afirmaram recear acidentes de trânsito, enquanto quase um terço revelou nunca ter aprendido a andar de bicicleta.
Para enfrentar esse cenário, Bogotá expandiu sua rede de ciclovias protegidas, que já soma quase 684 quilômetros, a maior da América Latina. A prefeitura também investe em iluminação, manutenção da infraestrutura e reforço do policiamento em corredores utilizados por ciclistas.
Segundo Claudia Díaz, oferecer infraestrutura de qualidade é uma forma de mostrar que a bicicleta é uma opção segura para as mulheres.
Aprender depois de adulta
Nem todas as barreiras estão relacionadas à infraestrutura. Muitas mulheres chegam à vida adulta sem saber pedalar.
A Escola de Bicicletas de Bogotá, programa municipal que atende cerca de 40 mil pessoas por ano, mostra o tamanho desse desafio: aproximadamente 80% dos participantes são mulheres.
De acordo com o coordenador Sergio Prieto, muitas alunas contam que, durante a infância, ouviram que bicicleta era “coisa de homem” e que meninas não deveriam pedalar.
“Muitas mulheres mais velhas vêm até nós porque nunca tiveram a oportunidade de aprender quando eram crianças. Aqui, esses estereótipos ficam para trás.”
Mobilidade para quem cuida
Foi justamente para enfrentar esse tipo de preconceito que a colombiana Eliana González criou, em 2018, o projeto Mamacitas en Bici.
Ela utiliza uma bicicleta de carga para transportar os filhos pela cidade e afirma que sofreu críticas quando começou a fazer isso. Pessoas desconhecidas a chamavam de irresponsável por levar o bebê sobre duas rodas.
Em vez de abandonar a ideia, González passou a reunir outras mães interessadas em utilizar bicicletas no cotidiano. Hoje, o grupo orienta famílias sobre adaptações seguras para transportar crianças, promove passeios coletivos e ensina mulheres e crianças a pedalar.

Segundo ela, a bicicleta representa mais do que um meio de transporte.
“Percebi como é importante existirem espaços seguros para que possamos circular pela cidade como mulheres, em uma sociedade que ainda nos trata de maneira diferente e onde continuamos expostas à violência.”
Muito além da mobilidade
Para González, incentivar mais mulheres a pedalar significa ampliar a autonomia feminina, melhorar a saúde e contribuir para cidades mais sustentáveis.
Ela afirma que deseja deixar uma Bogotá mais verde para seus filhos e acredita que cada viagem feita de bicicleta ajuda nesse processo.
“Ainda temos muitos espaços verdes na nossa cidade e quero fazer a minha parte para preservá-los. Sempre que escolho a bicicleta, contribuo para esse esforço ambiental.”