A China entrou na guerra dos Houthis pela porta dos fundos

Após um pedido de ajuda da Arábia Saudita, Beijing pressionou Teerã a usar sua influência sobre os Houthis para conter a escalada no Mar Vermelho

A China entrou discretamente na nova escalada da guerra no Iêmen. Depois de a Arábia Saudita pedir ajuda a Beijing, o governo chinês procurou o Irã para pedir que Teerã use sua influência sobre os Houthis e tente conter a ofensiva do grupo no litoral do Mar Vermelho e nas proximidades do estreito de Bab el-Mandeb.

A informação foi divulgada pela Reuters nesta quinta-feira (17), com base em três fontes iranianas familiarizadas com as conversas. Segundo elas, a mensagem chinesa foi transmitida de forma privada e foi além dos apelos públicos de Beijing por contenção, diálogo e liberdade de navegação.

O movimento coloca a China em uma posição incomum. Beijing não está entrando diretamente no conflito nem assumindo um papel militar, mas tenta usar sua relação econômica e diplomática com Teerã para influenciar um dos principais atores da guerra no Iêmen.

Combatentes houthis são transportados na traseira de uma viatura policial após participarem de um ato do grupo em Sanaa, capital do Iêmen, em 19 de fevereiro de 2020 (Foto: WikiCommons)

O motivo é estratégico: a ofensiva dos Houthis passou a ameaçar diretamente duas das principais rotas marítimas de energia do Oriente Médio. O grupo avançou rapidamente pela costa do Mar Vermelho e assumiu posições próximas ao Bab el-Mandeb, estreito que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e funciona como passagem para o transporte marítimo entre o Oriente Médio, a Ásia e a Europa.

O pedido saudita

A aproximação começou com Riad. A Arábia Saudita recorreu à China depois que os Houthis ampliaram rapidamente seu controle sobre áreas costeiras e ilhas próximas ao Bab el-Mandeb, deixando mais expostos o transporte marítimo e as exportações de petróleo sauditas.

A ofensiva também provocou uma nova onda de deslocamentos no Iêmen. Segundo a Organização Internacional para as Migrações, mais de 100 mil pessoas foram deslocadas pelos combates recentes.

A própria Arábia Saudita passou a realizar ataques contra posições houthis, enquanto o grupo lançou mísseis e drones contra alvos em território saudita. A escalada ocorre em paralelo à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, ampliando o risco de que o conflito se espalhe por outras partes do Oriente Médio.

China depende das rotas

A preocupação de Beijing é principalmente econômica. A China é o principal comprador do petróleo iraniano e respondeu por mais de 80% das exportações marítimas de petróleo do país em 2025, segundo dados da Kpler citados pela Reuters. As importações chinesas chegaram a uma média de aproximadamente 1,4 milhão de barris por dia.

Ao mesmo tempo, cerca de metade do petróleo importado pela China vem do Oriente Médio, enquanto o comércio entre Beijing e os países do Conselho de Cooperação do Golfo movimenta cerca de US$ 300 bilhões por ano.

Isso cria um problema para Beijing. A China possui uma relação estratégica com o Irã, mas também depende da estabilidade dos países árabes do Golfo e das rotas marítimas que transportam seus recursos energéticos.

A situação se tornou ainda mais delicada porque o Estreito de Ormuz também está bloqueado pela guerra com o Irã. Caso os ataques houthis comprometam de forma prolongada o Bab el-Mandeb, as duas principais saídas marítimas de petróleo do Oriente Médio ficariam simultaneamente sob pressão.

A influência de Teerã

Os Houthis são apoiados pelo Irã e integram a rede de grupos armados aliados de Teerã no Oriente Médio. O nível exato de controle iraniano sobre as decisões do movimento, porém, é menos claro.

É justamente essa relação que Beijing tenta explorar. Segundo as fontes ouvidas pela reportagem, a resposta iraniana foi que a estabilidade regional depende do fim da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Teerã não teria recebido ameaças explícitas de sanções ou outras medidas econômicas caso não atendesse ao pedido chinês.

A China tem instrumentos de pressão econômica. Além de ser o principal comprador do petróleo iraniano, Beijing está entre os poucos países com capacidade financeira para investir na indústria petrolífera iraniana e ajudar a aliviar os efeitos das sanções e da guerra sobre a economia do país.

Mas essa influência tem limites. A relação entre os dois países ganhou importância desde o acordo de cooperação de 25 anos firmado em 2021, mas críticos iranianos apontam que os investimentos e o comércio chinês fora do setor petrolífero ficaram abaixo das expectativas.

Em 2023, Beijing demonstrou sua capacidade diplomática ao intermediar o acordo que restabeleceu as relações entre Irã e Arábia Saudita após anos de hostilidade. Agora, a crise no Iêmen coloca essa capacidade novamente à prova.

A questão central para Beijing é até onde está disposto a usar sua influência sobre Teerã. A China precisa do Irã como parceiro estratégico, mas também precisa que Hormuz seja reaberto e que a navegação pelo Mar Vermelho volte a operar com segurança.

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