“Já virou rotina”: russos dizem ignorar alertas de ataques de drones ucranianos

Enquanto ataques ucranianos com drones atingem cidades russas cada vez mais distantes da fronteira, moradores relatam que sirenes e notificações de emergência deixaram de provocar medo e passaram a fazer parte da rotina

Enquanto drones ucranianos atingem cidades e estruturas estratégicas cada vez mais distantes da fronteira, moradores de diferentes regiões da Rússia afirmam que sirenes e notificações de emergência deixaram de provocar medo e passaram a fazer parte do cotidiano. As informações são do The Moscow Times.

A reportagem ouviu moradores de sete regiões russas para entender como a população reage aos alertas de ataques aéreos e se as pessoas buscam proteção quando há risco de drones ou mísseis.

O tema ganhou destaque após um dos ataques mais letais registrados na região de Krasnodar desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. Na segunda-feira (3), sete pessoas morreram e outras 47 ficaram feridas após um ataque com drone ucraniano atingir a área turística de Arkhipo-Osipovka, no litoral do Mar Negro.

Fumaça é vista sobre Moscou após um incêndio na região metropolitana da capital russa, em julho de 2026 (Foto: WikiCommons)

Imagens registraram o momento em que o drone caiu próximo a uma praia movimentada. Testemunhas disseram, porém, que não ouviram sirenes antes do ataque.

Com a intensificação dos ataques, moradores relatam diferentes formas de convivência com a ameaça. Em algumas regiões, alertas por SMS e sirenes são recebidos com atenção. Em outras, a população afirma ter se acostumado e prefere continuar a rotina.

“Já não reagimos”

Na região de Belgorod, uma das áreas russas mais próximas da Ucrânia e frequentemente atingida por ataques, um morador afirmou que os alertas funcionam durante ameaças de mísseis, mas que há dúvidas sobre quando devem ser acionados em ataques com drones.

Segundo ele, a população deixou de reagir como no início da guerra.

“Às vezes ligam as sirenes, às vezes não. As pessoas já não se importam o suficiente para procurar abrigo”, relatou.

Em Kursk, outro morador disse que o sistema de alerta funciona com sirenes e notificações pelas redes sociais. Ele também afirmou que é possível ouvir os sistemas de defesa aérea atuando sobre a cidade.

Apesar disso, a reação mudou.

“Já não reagimos mais. Esses períodos às vezes duram muito tempo. Se as crianças estão na rua, nós as chamamos para casa. A sirene está tocando novamente neste momento”, afirmou.

Ataques contra a “Amazon” russa

Na região de Voronezh, moradores disseram que passaram a ouvir alertas com mais frequência após uma série de ataques contra instalações logísticas da varejista online Wildberries.

Um morador afirmou que começou a acompanhar canais do Telegram que monitoram ameaças aéreas e movimentos de drones.

“Eu nunca tinha feito isso antes, mas se tornou importante ultimamente, principalmente quando vejo esses acontecimentos acontecendo perto de casa”, disse.

Mesmo assim, muitos moradores evitam interromper suas atividades ou procurar abrigos durante os alertas.

Uma moradora da cidade de Voronezh afirmou que, quando está em casa durante ataques, costuma buscar um local mais protegido, mas que, quando está na rua, tenta apenas chegar ao destino.

Novo normal

Na região de Krasnodar, onde ocorreu o ataque contra turistas, um morador disse receber alertas por SMS, mas afirmou que normalmente não toma nenhuma atitude.

“Recentemente ouvimos uma sirene durante a noite, mas não fizemos nada. Se acontecer novamente, pensamos em nos esconder no banheiro”, contou.

Em Ufa, capital da República do Bascortostão, moradores próximos a refinarias disseram que os ataques passaram a fazer parte da rotina.

“Fiquei muito assustado durante o ataque de junho, mas em julho já virou rotina. Infelizmente, essa é a nossa nova realidade”, disse um morador.

Segundo ele, durante os alertas continua trabalhando ou observa pela janela para tentar identificar algum drone.

Moradores do principal polo de refino de petróleo da Rússia também relataram que as sirenes funcionam apenas na área industrial e que outras regiões dependem principalmente de mensagens por celular, que muitas vezes chegam atrasadas.

Combustível e incêndios

Além dos ataques com drones, diferentes regiões russas enfrentam problemas internos. Na região de Tyumen, moradores estão sem água potável desde julho após enchentes provocadas por fortes chuvas. A contaminação da água levou autoridades a enviarem caminhões-pipa, mas moradores reclamam que o abastecimento é insuficiente.

No distrito autônomo de Yamalo-Nenets, autoridades decretaram estado de emergência devido aos incêndios florestais. Mais de três milhões de hectares de florestas foram destruídos pelo fogo na Rússia neste ano, segundo dados oficiais.

A crise de combustíveis também continua afetando diversas áreas do país. Regiões como Volgogrado, Zabaikalsky e Krasnoyarsk voltaram a adotar limites para compra de gasolina, enquanto algumas linhas de ônibus foram suspensas.

Em Krasnoyarsk, as restrições foram temporariamente suspensas durante a visita do presidente Vladimir Putin à cidade. Moradores ironizaram a situação nas redes sociais, dizendo que “o chefe chegou e trouxe gasolina para o dia todo”.

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