Taiwan está ampliando o papel de sua Guarda Costeira na estratégia de defesa nacional diante da crescente pressão militar da China. Navios-patrulha passaram a ser equipados com mísseis antinavio e a participar de exercícios conjuntos com a Marinha, incluindo simulações de bloqueio e invasão. As informações são do Wall Street Journal.
A mudança ocorre em meio ao aumento das atividades militares e marítimas chinesas ao redor da ilha. Beijing considera Taiwan parte de seu território e não descarta o uso da força para assumir o controle do território.
Um dos exemplos dessa transformação é o Bali, navio-patrulha de resposta rápida da Guarda Costeira taiwanesa. A embarcação, de 65 metros, pode transportar os mísseis antinavio Hsiung Feng II e Hsiung Feng III, além de participar de operações de resgate e fiscalização marítima.

Exercícios contra bloqueio chinês
Nesta semana, o Bali participou de um exercício conjunto com a Marinha e outros navios da Guarda Costeira. A simulação envolveu a escolta de um navio comercial através de um bloqueio chinês fictício.
O objetivo é preparar Taiwan para manter abertas as rotas marítimas em caso de um conflito. O acesso a energia e outros suprimentos importados seria um dos fatores determinantes para a capacidade da ilha de resistir a um eventual ataque chinês.
A Guarda Costeira também participou de 33 exercícios durante as manobras militares anuais Han Kuang, realizadas neste ano. Os treinamentos fazem parte de uma estratégia para aumentar a integração entre forças militares e unidades responsáveis pela segurança marítima.
Segundo Ian Easton, professor associado da Escola de Guerra Naval dos Estados Unidos, a preparação é necessária porque a Guarda Costeira tradicionalmente tem uma cultura voltada à aplicação da lei e à defesa costeira, e não a grandes operações militares.
Navios-patrulha
O plano de modernização da Guarda Costeira prevê a incorporação de 141 novas embarcações. O programa de dez anos começou em 2018 e inclui navios maiores e mais capazes.
Pelo menos 12 embarcações de porte semelhante ao Bali podem receber armamentos mais pesados. Em caso de guerra, esses navios passariam ao comando da Marinha de Taiwan.
A Marinha também vem treinando integrantes da Guarda Costeira para melhorar a interoperabilidade entre as forças. Em exercícios realizados no ano passado, uma embarcação semelhante ao Bali realizou disparos com munição real de dois mísseis Hsiung Feng II.
Para Easton, os navios da Guarda Costeira podem desempenhar um papel importante em diferentes cenários de conflito, desde que sejam adequadamente equipados e que suas tripulações recebam treinamento específico.
China amplia presença marítima
A mudança na estratégia de Taiwan ocorre enquanto a China utiliza sua própria Guarda Costeira de maneira cada vez mais agressiva.
Navios chineses são enviados regularmente para as águas ao redor de Taiwan, muitas vezes acompanhados por embarcações da Marinha. Beijing também realiza exercícios que simulam bloqueios e invasões da ilha.
Para Taipei, essas ações fazem parte da chamada estratégia de “zona cinzenta”, que busca pressionar Taiwan sem necessariamente iniciar uma guerra aberta.
A Guarda Costeira chinesa também tem sido utilizada para tentar impor autoridade sobre embarcações estrangeiras próximas a Taiwan, ampliando a disputa pelo controle das águas ao redor da ilha.
Taiwan evita conflito, mas de olhos abertos
O comandante Ger Si-an, do navio-patrulha Taipei, afirmou que as armas da Guarda Costeira têm principalmente finalidade policial. Segundo ele, o objetivo é evitar o uso da força sempre que possível, mas manter capacidade de resposta caso a situação exija.
A estratégia de Taipei combina, portanto, dissuasão e preparação militar. A ideia é aumentar o custo de uma eventual operação chinesa e, ao mesmo tempo, garantir que Taiwan consiga manter suas rotas marítimas abertas e proteger o abastecimento durante uma crise.