A corrida pela inteligência artificial (IA) começa a criar um novo problema estratégico: onde encontrar energia suficiente para manter os sistemas de computação em expansão. Empresas de tecnologia e especialistas do setor aeroespacial avaliam a possibilidade de instalar data centers em órbita da Terra, aproveitando a disponibilidade contínua de energia solar e reduzindo a dependência de terrenos e água para refrigeração. As informações são da Anadolu.
A proposta ganhou novo impulso após declarações de figuras da indústria espacial, entre elas o administrador da NASA, Jared Isaacman, que defendeu levar parte da infraestrutura de computação de IA para a órbita terrestre. A discussão ocorre enquanto o consumo de eletricidade dos data centers cresce rapidamente em razão da expansão dos modelos de inteligência artificial.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers consumiram cerca de 485 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2025. A projeção é de que esse consumo chegue a aproximadamente 950 TWh em 2030, praticamente dobrando em cinco anos e representando cerca de 3% da demanda mundial por eletricidade. No mesmo período, o consumo dos data centers voltados à IA deve triplicar.

A pressão não decorre apenas do aumento no número de usuários. A expansão de aplicações como geração de vídeo, sistemas de raciocínio e agentes autônomos também amplia a demanda por processamento. A IEA aponta que, embora o consumo de energia por tarefa de IA esteja caindo rapidamente graças aos avanços em hardware e software, o crescimento da utilização e de aplicações mais intensivas mantém a pressão sobre o sistema elétrico.
Os data centers orbitais seriam uma tentativa de contornar parte dessas limitações. Fora da atmosfera e em órbitas adequadas, painéis solares poderiam receber luz solar de maneira mais contínua. A infraestrutura também não dependeria de grandes áreas de terra nem de água para refrigeração, dois fatores que já pesam na expansão de instalações terrestres.
A tecnologia, porém, está longe de estar pronta para uma implantação em larga escala. O custo de levar equipamentos ao espaço, a transmissão de dados entre satélites e a Terra, a radiação, a necessidade de dissipar calor e a dificuldade de realizar manutenção são obstáculos importantes.
Slava G. Turyshev, pesquisador do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), da NASA, afirmou à Anadolu que um data center orbital não pode ser tratado simplesmente como um rack de servidores colocado em um foguete. Segundo ele, um nó de computação de 1 megawatt poderia exigir até 6 mil metros quadrados de painéis solares e pesar aproximadamente 75 toneladas.
A infraestrutura também teria de utilizar processadores protegidos contra a radiação espacial e estruturas modulares capazes de abrigar painéis solares e radiadores. O problema é agravado pelo congestionamento da órbita terrestre: Turyshev estima que cerca de 16 mil espaçonaves já estejam em órbita, com tendência de crescimento.
A corrida, entretanto, já deixou de ser apenas uma hipótese. Em setembro, a Reuters informou que a empresa indiana TakeMe2Space planejava lançar um satélite equipado com processadores Nvidia para realizar processamento de dados em órbita, reduzindo a necessidade de transmitir grandes volumes de dados brutos para a Terra.
O Google também iniciou um experimento orbital com chips desenvolvidos para inteligência artificial. O projeto Suncatcher pretende testar o funcionamento de unidades de processamento de IA no espaço e, em uma etapa futura, estudar uma possível rede formada por milhares de satélites interconectados.
Para Turyshev, resultados concretos na computação orbital podem começar a aparecer nos próximos cinco anos. Uma rede comercial de satélites dedicada ao processamento de dados poderia operar em um horizonte de sete a dez anos.
A disputa, portanto, pode ganhar uma nova dimensão: além de chips, modelos de IA e capacidade de processamento, empresas e governos terão de garantir acesso a enormes volumes de energia. Se a computação orbital se tornar economicamente viável, a infraestrutura necessária para sustentar a inteligência artificial poderá deixar de estar concentrada apenas em grandes instalações terrestres e passar a ocupar também a órbita da Terra.