Seca histórica expõe leito do Danúbio e provoca crise de água e energia na Hungria

Fenômeno reduziu drasticamente o nível do rio, destruiu plantações, afetou o abastecimento de água e obrigou a Hungria a desligar reatores nucleares

Uma seca histórica está transformando a paisagem às margens do Danúbio, na Hungria. O nível excepcionalmente baixo do rio expôs trechos do leito, revelou estruturas e objetos que estavam submersos há décadas e provocou impactos sobre a agricultura, o abastecimento de água e a geração de energia.

Ao longo de mais de 160 quilômetros percorridos pelo rio, moradores relatam dificuldades para obter água potável, enquanto agricultores contabilizam perdas significativas nas plantações. Em alguns pontos, o Danúbio ficou tão raso que pessoas passaram a caminhar e até pedalar pelo leito anteriormente coberto pela água. As informações são do The Guardian.

Uma fotografia registrada em 17 de outubro de 2018 mostra a chamada “Pedra da Fome” às margens do Danúbio, em Budapeste, diante da Ponte da Liberdade (Foto: WikiCommons)
“Pedra da Fome”

Em Budapeste, a seca revelou quase completamente a chamada Ínség-szikla, conhecida como “Pedra da Fome”. Durante séculos, o surgimento da formação rochosa foi associado a períodos de níveis extremamente baixos do Danúbio, quando os moinhos flutuantes deixavam de funcionar e as colheitas corriam risco.

Agora, a rocha voltou a aparecer em meio a uma das maiores crises hídricas recentes enfrentadas pela Hungria.

O baixo nível do rio também expôs outros vestígios históricos, incluindo restos de um mamute-lanoso, uma antiga ponte destruída após a Segunda Guerra Mundial, um navio de guerra nazista e uma bomba britânica que não explodiu.

Perdas agrícolas

Em Pócsmegyer, no condado de Pest, o agricultor István Somogyi estima ter perdido quase metade da produção neste ano. Segundo ele, as perdas podem chegar a 70%.

“Acabou. Tudo secou”, afirmou Somogyi, que cultiva a região desde o fim do regime comunista.

O agricultor afirma que as ondas de calor e as secas registradas nos últimos anos já indicavam a possibilidade de uma crise mais grave. No entanto, a situação atual teria sido agravada pela combinação entre temperaturas extremas na Europa e a falta de água no Danúbio.

A previsão do primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, é de que os prejuízos econômicos provocados pela seca de 2026 superem os registrados durante a histórica estiagem de 2022.

Água escassa

Em Szentendre, uma cidade conhecida por sua comunidade artística, a situação também chegou ao abastecimento de água.

Segundo o vice-prefeito József Gulyás, entre 4 mil e 5 mil famílias ficaram sem água. A administração municipal distribuiu cerca de 25 toneladas do recurso e passou a manter milhares de garrafas armazenadas para atender principalmente idosos e moradores em situação de vulnerabilidade.

A crise também aumentou os riscos para quem entra no Danúbio para tentar escapar do calor.

Em alguns trechos, a água ficou tão rasa que o rio pode ser atravessado a pé. Mesmo assim, equipes de resgate alertam que o leito irregular esconde áreas profundas capazes de representar risco de afogamento.

Rio quase seco

Em Budapeste, o nível do Danúbio chegou a apenas 14 a 19 centímetros em 4 de agosto, segundo dados hidrológicos citados pelo The Guardian.

A redução transformou a paisagem da capital. Em 28 de julho, o ciclista Gábor Kürti percorreu cerca de 30 quilômetros pelo leito exposto do rio, em uma jornada que rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais.

Kürti afirmou que a experiência foi ao mesmo tempo impressionante e angustiante. Ele passou de bicicleta por áreas de cascalho, pedras, areia compactada e lama que normalmente permanecem cobertas pelas águas do Danúbio.

“Para mim, foi de partir o coração”, afirmou.

Energia afetada

A seca não prejudicou apenas o abastecimento de água e a agricultura. A redução do nível do Danúbio também atingiu o setor energético da Hungria.

O país foi obrigado a interromper temporariamente o funcionamento de quase todos os seus reatores nucleares refrigerados pelo rio. Apenas um permaneceu em operação durante o período mais crítico.

A situação expôs a dependência da infraestrutura energética em relação às condições do Danúbio e aumentou a pressão sobre o sistema elétrico em meio às temperaturas extremas.

Natureza ameaçada

As consequências também atingiram áreas naturais próximas ao rio.

Em Nagytétény, uma área protegida que normalmente só pode ser acessada de barco passou a ser alcançada a pé. O recuo da água deixou expostos trechos do leito e comprometeu áreas alagadas importantes para a fauna e a vegetação.

As autoridades húngaras passaram a bombear água para algumas reservas naturais na tentativa de impedir que pântanos e outros ambientes úmidos sequem completamente.

Crise social

Em Paks, onde está localizada a principal usina nuclear do país, funcionários municipais trabalham para preservar árvores e plantas ameaçadas pelo calor.

A situação é ainda mais difícil para famílias que já enfrentavam problemas de infraestrutura. Géza Orsós Renáta, que vive com quatro filhos nos arredores da cidade, nunca teve água encanada. A família depende da água fornecida por um vizinho e precisa armazená-la para as atividades domésticas.

“Está se tornando insuportável”, afirmou.

A seca, portanto, não representa apenas um problema ambiental. Ela amplia desigualdades existentes e atinge com maior intensidade comunidades que já possuem acesso precário a serviços básicos.

Calor extremo

A crise ocorre em meio a temperaturas excepcionalmente elevadas na Europa. Em Budapeste, os termômetros chegaram perto dos 42°C durante a onda de calor, enquanto as temperaturas mínimas permaneceram próximas de 28°C.

O aquecimento do continente tem contribuído para intensificar ondas de calor e períodos prolongados de seca, aumentando a pressão sobre rios, reservas naturais, agricultura e sistemas de abastecimento.

No Danúbio, os efeitos são visíveis a olho nu. O que antes era uma das principais vias fluviais da Europa agora apresenta extensas áreas de areia, lama e pedras expostas.

Sinal de alerta

Para agricultores como István Somogyi, a volta da seca no próximo ano deixou de ser uma possibilidade distante. O produtor afirma que as condições atuais fazem parte de uma tendência que vem se consolidando nos últimos anos.

“A seca voltará no ano que vem”, disse. “Essa é a tendência. E não há muito que possamos fazer.”

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