Europa enfrenta dilema com ar-condicionado em meio a ondas de calor cada vez mais extremas

Enquanto temperaturas recordes elevam as mortes relacionadas ao calor, especialistas defendem que ampliar o acesso ao ar-condicionado pode salvar vidas sem comprometer significativamente as metas climáticas

As sucessivas ondas de calor que atingem a Europa reacenderam um debate que vai muito além do conforto térmico. Em um continente onde o ar-condicionado ainda é visto com desconfiança por parte da população e da classe política, especialistas defendem que a ampliação do acesso à tecnologia pode ser uma medida essencial para reduzir mortes provocadas pelas temperaturas extremas, que se tornam cada vez mais frequentes devido às mudanças climáticas. As informações constam de um artigo da Vox.

Enquanto cerca de 90% das residências nos Estados Unidos possuem ar-condicionado, apenas aproximadamente 20% dos lares europeus contam com o equipamento. Em muitos países do continente, hospitais, escolas e prédios públicos também operam sem sistemas de climatização, refletindo uma cultura que tradicionalmente prioriza métodos naturais para enfrentar o calor, como persianas fechadas, ventilação cruzada, sombra e arborização.

Dia de verão em Paris (Foto: WikiCommons)

No entanto, a realidade climática vem mudando rapidamente. A Europa é hoje o continente que aquece mais rápido no planeta, registrando um aumento de temperatura aproximadamente duas vezes superior à média global desde os anos 1980. Apenas em 2022, mais de 61 mil pessoas morreram por causas relacionadas ao calor extremo no continente. Durante a recente onda de calor que atingiu países como França, Espanha, Itália e Portugal, estimativas preliminares apontam para centenas de mortes adicionais em poucos dias.

Ar-condicionado salva vidas, apontam estudos

Pesquisas mostram que a disseminação do ar-condicionado teve impacto direto na redução da mortalidade causada pelo calor.

Um estudo conduzido pelo economista Alan Barreca e outros pesquisadores analisou dados dos Estados Unidos ao longo do século XX e concluiu que a expansão do uso residencial do ar-condicionado reduziu em cerca de 80% o risco de morte durante dias de calor extremo. Segundo os autores, praticamente toda essa redução ocorreu após a popularização da tecnologia a partir da década de 1960.

Outro levantamento, realizado pelo Lancet Countdown, estima que o ar-condicionado evitou cerca de 195 mil mortes relacionadas ao calor entre pessoas com mais de 65 anos somente em 2019.

Para especialistas, esses dados indicam que a climatização deixou de ser apenas uma questão de conforto e passou a integrar as estratégias de adaptação às mudanças climáticas.

O impacto ambiental é menor do que muitos imaginam

Um dos principais argumentos contrários à expansão do ar-condicionado é seu consumo de energia e o potencial aumento das emissões de gases de efeito estufa.

Entretanto, estudos recentes indicam que esse impacto tende a ser relativamente pequeno, especialmente em regiões onde a geração de eletricidade utiliza fontes renováveis.

Hoje, a refrigeração representa apenas cerca de 0,8% do consumo energético residencial da União Europeia, enquanto o aquecimento responde por aproximadamente 77%.

Uma pesquisa publicada em 2023 estima que, mesmo dobrando a quantidade de residências com ar-condicionado até 2050, as emissões adicionais representariam apenas cerca de 0,3% das emissões atuais do bloco europeu.

Além disso, a participação das energias renováveis na matriz elétrica europeia cresce continuamente, reduzindo ainda mais a pegada de carbono da climatização.

Adaptação climática exige diferentes soluções

Especialistas ressaltam que o ar-condicionado não deve ser visto como a única resposta ao calor extremo, mas como parte de um conjunto de medidas.

Entre elas estão:

  • aumento da arborização urbana;
  • telhados e fachadas com cores claras;
  • edifícios mais eficientes termicamente;
  • persianas externas;
  • ampliação das áreas verdes;
  • uso de bombas de calor, que podem refrigerar no verão e aquecer no inverno com alta eficiência energética.

Essa combinação permite reduzir tanto o consumo de energia quanto os riscos para a saúde durante eventos climáticos extremos.

Debate político cresce na Europa

O tema também passou a ocupar espaço no cenário político europeu.

Na França, por exemplo, o aumento do acesso ao ar-condicionado tornou-se pauta de diferentes grupos políticos, refletindo divergências sobre a melhor forma de conciliar adaptação climática, consumo de energia e proteção da população.

Especialistas alertam, porém, que transformar o ar-condicionado em símbolo ideológico pode dificultar discussões baseadas em evidências científicas. Para eles, a principal questão não é se a tecnologia deve existir, mas como utilizá-la de forma eficiente, sustentável e priorizando os grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças e pacientes hospitalares.

Tags: