Argentinos se endividam para pagar contas e empréstimos por aplicativos disparam

Milhões de argentinos estão recorrendo a fintechs e aplicativos de crédito enquanto a inadimplência das famílias atinge o maior nível desde 2010

O aumento do endividamento das famílias argentinas tem ampliado o uso de aplicativos de empréstimos e serviços financeiros digitais. Trabalhadores autônomos e pessoas sem emprego formal estão entre os clientes dessas plataformas, que oferecem crédito com taxas de juros elevadas. As informações são da Reuters.

O setor de empréstimos por fintechs na Argentina chegou a 10 milhões de operações individuais, contra cerca de 500 mil registradas seis ou sete anos atrás, segundo Mariano Biocca, diretor-executivo da Câmara Argentina de Fintech.

Pessoas circulam por uma rua de Buenos Aires, capital da Argentina (Foto: WikiCommons)
Empréstimos digitais

Trabalhadores de aplicativos de entrega estão entre os usuários desse tipo de crédito. O entregador Albert Quintero, de 41 anos, afirmou à Reuters que recebe aproximadamente 70 mil pesos por dia e pode precisar de cerca de 140 mil pesos para recuperar uma motocicleta apreendida, considerando multas e taxas.

Plataformas como o PedidosYa oferecem empréstimos com taxa anual de aproximadamente 131%. A carteira digital Personal Pay cobra cerca de 170%, segundo dados citados pela reportagem.

O crédito digital também atende pessoas que enfrentam dificuldades para conseguir financiamento nos bancos tradicionais. Segundo Biocca, as fintechs concedem empréstimos para clientes sem renda estável ou emprego formal.

Inadimplência

Quase 6 milhões de argentinos estão com pagamentos atrasados há mais de 90 dias, segundo estimativas compiladas pela Câmara Argentina de Fintech. O número representa quase um terço dos mutuários.

Dados do Banco Central da República Argentina mostram que a taxa de inadimplência das famílias chegou a 12,8% em junho de 2026, o maior nível desde o início da série histórica, em 2010.

No fim de 2023, quando Javier Milei assumiu a Presidência, a taxa estava em 2,8%.

Custo do crédito

A Argentina passou por anos de inflação elevada, recessões e crises da dívida, fatores que limitaram a oferta de crédito. Com a desaceleração da inflação e maior estabilidade econômica, bancos e plataformas digitais ampliaram a concessão de empréstimos.

Ao mesmo tempo, medidas de austeridade reduziram subsídios e pressionaram o orçamento de parte das famílias, aumentando a procura por crédito para despesas cotidianas.

Um relatório da consultoria Analytica apontou que os jovens estão entre os grupos mais afetados pela inadimplência.

Impacto político

O endividamento das famílias também passou a fazer parte do debate político argentino. Sindicatos, organizações de consumidores e grupos de defesa dos devedores têm pedido medidas de alívio da dívida.

O governo Milei, porém, rejeita até o momento um programa de alívio da dívida com garantia estatal e considera os empréstimos não pagos uma questão entre credores e devedores privados.

O mercado de crédito argentino equivale a aproximadamente 12% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados citados pela Reuters. No Brasil, a proporção é de cerca de 80%.

Com as eleições presidenciais de 2027 no horizonte, analistas acompanham a evolução do emprego, do consumo e do endividamento das famílias.

Crédito por fintech

O crescimento das fintechs transformou os aplicativos em uma das principais portas de acesso ao crédito para trabalhadores autônomos e pessoas fora do sistema bancário tradicional.

Além de empréstimos, essas empresas oferecem carteiras digitais e outros serviços financeiros. Para trabalhadores que dependem de renda diária, o crédito pode ser utilizado para despesas emergenciais, custos relacionados ao trabalho e gastos básicos.

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