O aumento do endividamento das famílias argentinas tem ampliado o uso de aplicativos de empréstimos e serviços financeiros digitais. Trabalhadores autônomos e pessoas sem emprego formal estão entre os clientes dessas plataformas, que oferecem crédito com taxas de juros elevadas. As informações são da Reuters.
O setor de empréstimos por fintechs na Argentina chegou a 10 milhões de operações individuais, contra cerca de 500 mil registradas seis ou sete anos atrás, segundo Mariano Biocca, diretor-executivo da Câmara Argentina de Fintech.

Empréstimos digitais
Trabalhadores de aplicativos de entrega estão entre os usuários desse tipo de crédito. O entregador Albert Quintero, de 41 anos, afirmou à Reuters que recebe aproximadamente 70 mil pesos por dia e pode precisar de cerca de 140 mil pesos para recuperar uma motocicleta apreendida, considerando multas e taxas.
Plataformas como o PedidosYa oferecem empréstimos com taxa anual de aproximadamente 131%. A carteira digital Personal Pay cobra cerca de 170%, segundo dados citados pela reportagem.
O crédito digital também atende pessoas que enfrentam dificuldades para conseguir financiamento nos bancos tradicionais. Segundo Biocca, as fintechs concedem empréstimos para clientes sem renda estável ou emprego formal.
Inadimplência
Quase 6 milhões de argentinos estão com pagamentos atrasados há mais de 90 dias, segundo estimativas compiladas pela Câmara Argentina de Fintech. O número representa quase um terço dos mutuários.
Dados do Banco Central da República Argentina mostram que a taxa de inadimplência das famílias chegou a 12,8% em junho de 2026, o maior nível desde o início da série histórica, em 2010.
No fim de 2023, quando Javier Milei assumiu a Presidência, a taxa estava em 2,8%.
Custo do crédito
A Argentina passou por anos de inflação elevada, recessões e crises da dívida, fatores que limitaram a oferta de crédito. Com a desaceleração da inflação e maior estabilidade econômica, bancos e plataformas digitais ampliaram a concessão de empréstimos.
Ao mesmo tempo, medidas de austeridade reduziram subsídios e pressionaram o orçamento de parte das famílias, aumentando a procura por crédito para despesas cotidianas.
Um relatório da consultoria Analytica apontou que os jovens estão entre os grupos mais afetados pela inadimplência.
Impacto político
O endividamento das famílias também passou a fazer parte do debate político argentino. Sindicatos, organizações de consumidores e grupos de defesa dos devedores têm pedido medidas de alívio da dívida.
O governo Milei, porém, rejeita até o momento um programa de alívio da dívida com garantia estatal e considera os empréstimos não pagos uma questão entre credores e devedores privados.
O mercado de crédito argentino equivale a aproximadamente 12% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados citados pela Reuters. No Brasil, a proporção é de cerca de 80%.
Com as eleições presidenciais de 2027 no horizonte, analistas acompanham a evolução do emprego, do consumo e do endividamento das famílias.
Crédito por fintech
O crescimento das fintechs transformou os aplicativos em uma das principais portas de acesso ao crédito para trabalhadores autônomos e pessoas fora do sistema bancário tradicional.
Além de empréstimos, essas empresas oferecem carteiras digitais e outros serviços financeiros. Para trabalhadores que dependem de renda diária, o crédito pode ser utilizado para despesas emergenciais, custos relacionados ao trabalho e gastos básicos.