A China entrou discretamente na nova escalada da guerra no Iêmen. Depois de a Arábia Saudita pedir ajuda a Beijing, o governo chinês procurou o Irã para pedir que Teerã use sua influência sobre os Houthis e tente conter a ofensiva do grupo no litoral do Mar Vermelho e nas proximidades do estreito de Bab el-Mandeb.
A informação foi divulgada pela Reuters nesta quinta-feira (17), com base em três fontes iranianas familiarizadas com as conversas. Segundo elas, a mensagem chinesa foi transmitida de forma privada e foi além dos apelos públicos de Beijing por contenção, diálogo e liberdade de navegação.
O movimento coloca a China em uma posição incomum. Beijing não está entrando diretamente no conflito nem assumindo um papel militar, mas tenta usar sua relação econômica e diplomática com Teerã para influenciar um dos principais atores da guerra no Iêmen.

O motivo é estratégico: a ofensiva dos Houthis passou a ameaçar diretamente duas das principais rotas marítimas de energia do Oriente Médio. O grupo avançou rapidamente pela costa do Mar Vermelho e assumiu posições próximas ao Bab el-Mandeb, estreito que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e funciona como passagem para o transporte marítimo entre o Oriente Médio, a Ásia e a Europa.
O pedido saudita
A aproximação começou com Riad. A Arábia Saudita recorreu à China depois que os Houthis ampliaram rapidamente seu controle sobre áreas costeiras e ilhas próximas ao Bab el-Mandeb, deixando mais expostos o transporte marítimo e as exportações de petróleo sauditas.
A ofensiva também provocou uma nova onda de deslocamentos no Iêmen. Segundo a Organização Internacional para as Migrações, mais de 100 mil pessoas foram deslocadas pelos combates recentes.
A própria Arábia Saudita passou a realizar ataques contra posições houthis, enquanto o grupo lançou mísseis e drones contra alvos em território saudita. A escalada ocorre em paralelo à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, ampliando o risco de que o conflito se espalhe por outras partes do Oriente Médio.
China depende das rotas
A preocupação de Beijing é principalmente econômica. A China é o principal comprador do petróleo iraniano e respondeu por mais de 80% das exportações marítimas de petróleo do país em 2025, segundo dados da Kpler citados pela Reuters. As importações chinesas chegaram a uma média de aproximadamente 1,4 milhão de barris por dia.
Ao mesmo tempo, cerca de metade do petróleo importado pela China vem do Oriente Médio, enquanto o comércio entre Beijing e os países do Conselho de Cooperação do Golfo movimenta cerca de US$ 300 bilhões por ano.
Isso cria um problema para Beijing. A China possui uma relação estratégica com o Irã, mas também depende da estabilidade dos países árabes do Golfo e das rotas marítimas que transportam seus recursos energéticos.
A situação se tornou ainda mais delicada porque o Estreito de Ormuz também está bloqueado pela guerra com o Irã. Caso os ataques houthis comprometam de forma prolongada o Bab el-Mandeb, as duas principais saídas marítimas de petróleo do Oriente Médio ficariam simultaneamente sob pressão.
A influência de Teerã
Os Houthis são apoiados pelo Irã e integram a rede de grupos armados aliados de Teerã no Oriente Médio. O nível exato de controle iraniano sobre as decisões do movimento, porém, é menos claro.
É justamente essa relação que Beijing tenta explorar. Segundo as fontes ouvidas pela reportagem, a resposta iraniana foi que a estabilidade regional depende do fim da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Teerã não teria recebido ameaças explícitas de sanções ou outras medidas econômicas caso não atendesse ao pedido chinês.
A China tem instrumentos de pressão econômica. Além de ser o principal comprador do petróleo iraniano, Beijing está entre os poucos países com capacidade financeira para investir na indústria petrolífera iraniana e ajudar a aliviar os efeitos das sanções e da guerra sobre a economia do país.
Mas essa influência tem limites. A relação entre os dois países ganhou importância desde o acordo de cooperação de 25 anos firmado em 2021, mas críticos iranianos apontam que os investimentos e o comércio chinês fora do setor petrolífero ficaram abaixo das expectativas.
Em 2023, Beijing demonstrou sua capacidade diplomática ao intermediar o acordo que restabeleceu as relações entre Irã e Arábia Saudita após anos de hostilidade. Agora, a crise no Iêmen coloca essa capacidade novamente à prova.
A questão central para Beijing é até onde está disposto a usar sua influência sobre Teerã. A China precisa do Irã como parceiro estratégico, mas também precisa que Hormuz seja reaberto e que a navegação pelo Mar Vermelho volte a operar com segurança.