O mercado automobilístico iraniano se tornou um dos exemplos da pressão sobre o custo de vida no país. Os preços de carros nacionais subiram entre 40% e 80% desde o início da guerra, enquanto alguns veículos passaram a custar mais de 130% acima do valor registrado em setembro de 2025. As informações são da Al Jazeera.
A alta também atingiu a manutenção. Pneus, óleo de motor, pastilhas de freio e kits de embreagem produzidos no Irã pelo menos dobraram de preço desde o ano passado. Algumas peças automotivas ficaram mais de três vezes mais caras.
Em Teerã, a situação é ilustrada pela experiência de Hossein, um especialista em marketing de 32 anos. Ele recebe cerca de 900 milhões de riais por mês, aproximadamente quatro vezes e meia o salário mínimo, mas ainda não consegue substituir seu Peugeot 206, com 13 anos de uso, por um veículo novo.

Um Peugeot 207 com câmbio automático custa cerca de 28 bilhões de riais, o equivalente a mais de 20 meses do salário integral de Hossein. Um sedã Shahin supera os 31 bilhões de riais, enquanto o crossover Reera passa de 43 bilhões.
A diferença entre os preços dos veículos e a renda também aparece no segmento de importados. Um Toyota Land Cruiser VXR 2026 é vendido por cerca de 660 bilhões de riais no Irã, aproximadamente US$ 287 mil, enquanto o mesmo modelo custa cerca de US$ 86 mil nos Emirados Árabes Unidos.
Produção em queda
A indústria automobilística iraniana também enfrenta redução da produção e limitações para importar veículos e componentes.
Segundo dados divulgados pela mídia estatal, cerca de 233 mil carros foram fabricados ou montados no Irã nos primeiros cinco meses de 2026, contra 366 mil no mesmo período de 2025. Apenas aproximadamente 25 mil veículos foram importados durante os cinco primeiros meses deste ano.
As importações estão concentradas em um pequeno número de empresas estatais ou intermediárias autorizadas pelo governo. Impostos de importação e o IVA podem elevar os preços finais dos veículos em até 200%.
O governo e o Parlamento discutiram neste ano a redução das tarifas de importação, mas não haviam anunciado um acordo até o momento da publicação da reportagem.
Sistema fechado
Especialistas apontam a combinação de proteção às empresas estatais, acesso privilegiado, isolamento econômico e restrições às importações como fatores que contribuem para os preços elevados dos veículos no mercado iraniano.
A guerra iniciada em fevereiro também agravou as dificuldades. Ataques contra instalações industriais e restrições ao transporte marítimo afetaram o fluxo de mercadorias e componentes utilizados pela indústria.
Funcionários iranianos e veículos da mídia estatal passaram a descrever o setor automobilístico como um sistema “mafioso”. Mohammad Rashidi, integrante da presidência do Parlamento iraniano, afirmou que os consumidores são obrigados a comprar veículos caros e de baixa qualidade e disse que há “vestígios de um sistema mafioso” no processo.
A situação também envolve os custos de operação. Os veículos produzidos no país apresentam alto consumo de combustível e padrões de segurança considerados baixos. Mais de 20 mil pessoas morrem todos os anos em acidentes rodoviários no Irã, segundo os dados citados pela reportagem.
Carros chineses
A China ocupa espaço crescente no mercado automobilístico iraniano. Veículos chineses continuam chegando ao país apesar das sanções americanas, em um contexto de forte comércio bilateral e das exportações iranianas de petróleo para o mercado chinês.
Um SUV Exeed VX, por exemplo, custa cerca de US$ 32 mil na China e aproximadamente US$ 42 mil nos Emirados Árabes Unidos. No Irã, um modelo equivalente, montado com peças importadas por uma empresa estatal e vendido sob outro nome, chega a US$ 53 mil.
A diferença de preços também ficou evidente em uma exposição automobilística internacional realizada em Teerã. A maior parte dos veículos apresentados era fabricada na China.
Mesmo os modelos mais baratos estavam fora do alcance da população de baixa renda. Um trabalhador que recebe o salário mínimo precisaria de cerca de 50 anos de renda integral para comprar um XPENG G9, SUV elétrico chinês vendido no Irã por 120 bilhões de riais, ou aproximadamente US$ 52.150.
Apesar dos preços, milhares de pessoas visitaram a exposição durante os três dias do evento.