Jovens americanos que ajudaram Donald Trump a voltar à Casa Branca em 2024 estão se afastando do presidente às vésperas das eleições legislativas de novembro. O custo de vida, a guerra no Irã e a dificuldade de construir uma vida financeiramente estável alimentam a insatisfação, especialmente entre homens jovens que se identificavam com o discurso republicano.
Em reportagem publicada nesta quarta-feira (21), a Bloomberg descreve o fenômeno entre eleitores que acompanham podcasts populares, como os de Joe Rogan e Theo Von. Parte desse público, antes atraída pelas promessas de Trump de reduzir custos e evitar conflitos no exterior, agora questiona o governo e a própria utilidade do voto.
Uma pesquisa da Cygnal citada pela publicação mostra que homens de 18 a 30 anos decididos a votar preferem um candidato democrata ao Congresso a um republicano por 57% a 40%. Entretanto, apenas cerca de um terço dos entrevistados afirmou estar extremamente determinado a participar das eleições.

Insatisfação não garante votos
O afastamento de Trump não significa, necessariamente, uma adesão aos democratas. Para parte desses jovens, a frustração com a economia e a política se traduz em descrença nas instituições e desinteresse eleitoral, em vez de uma mudança de preferência partidária.
A reportagem também aborda o conceito de blackpilling, expressão inspirada no filme Matrix usada para descrever uma visão fatalista da vida. Nesse contexto, significa acreditar que os problemas sociais e econômicos não têm solução e desistir de tentar mudar a situação.
O fenômeno representa um desafio para os dois partidos. Os republicanos correm o risco de perder eleitores que ajudaram a eleger Trump, enquanto os democratas precisam convencer os insatisfeitos de que a mudança de governo pode produzir resultados concretos.
Disputa pela participação
Em artigo publicado pelo The Hill, a pesquisadora democrata Celinda Lake e a ativista Eve Levenson argumentam que a participação dos jovens pode determinar a dimensão dos resultados do partido nas eleições de novembro.
As autoras afirmam que os republicanos investiram US$ 1,2 bilhão em iniciativas para alcançar jovens eleitores em 2024, dez vezes mais do que os democratas. Segundo elas, o partido precisa ampliar os recursos destinados à mobilização, à publicidade e à comunicação digital para transformar a insatisfação com Trump em comparecimento às urnas.
O desafio é relevante porque o voto jovem varia bastante entre eleições. De acordo com o artigo, 28% dos integrantes da geração Z votaram nas eleições legislativas de 2022, ante 50% nas eleições presidenciais de 2024.
A diferença ajuda a explicar por que pesquisas favoráveis aos democratas não garantem uma vitória expressiva. Nos Estados Unidos, as eleições legislativas de meio de mandato ocorrem dois anos após a eleição presidencial e definem as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e parte do Senado. O resultado determina o equilíbrio de forças no Congresso e a capacidade do presidente de aprovar sua agenda.
A insatisfação com Trump, portanto, abre espaço para os democratas, mas não resolve o principal obstáculo: convencer eleitores desiludidos a participar. Para os republicanos, o risco é perder parte da coalizão que sustentou a vitória de 2024. Para os adversários, a oportunidade depende de transformar o descontentamento em votos.