Um sistema de inteligência artificial (IA) desenvolvido pela Microsoft acertou 83% dos diagnósticos em um teste com casos clínicos complexos, superando médicos generalistas que tiveram acesso a livros e ferramentas de pesquisa na internet. O resultado foi divulgado pela empresa após um estudo publicado na revista científica Science nesta quinta-feira (22). As informações são da Anadolu.
Batizado de MAI-DxO, o sistema alcançou uma precisão diagnóstica aproximadamente 2,3 vezes maior que a dos médicos que utilizaram fontes externas de consulta. Entre os profissionais que avaliaram os casos sem esse auxílio, a diferença foi ainda maior: a IA apresentou uma precisão cerca de 3,7 vezes superior.
Os pesquisadores testaram o sistema em 304 casos complexos publicados no The New England Journal of Medicine, periódico médico internacional. Nesse conjunto, a inteligência artificial acertou 83,2% dos diagnósticos. Os médicos alcançaram uma média de 36,1% de acertos com acesso a materiais de referência e de 22,3% sem esses recursos.

Apesar dos resultados, o experimento não demonstra que a tecnologia seja superior aos médicos em qualquer situação clínica. A avaliação ocorreu em ambiente controlado, com casos documentados, e não reproduziu todas as dificuldades de um atendimento real.
Como funciona
Diferentemente de sistemas que recebem um conjunto completo de informações e apresentam imediatamente uma resposta, o MAI-DxO procura reproduzir etapas do raciocínio clínico.
A ferramenta organiza diferentes agentes de inteligência artificial que atuam como uma equipe virtual. O sistema pode formular perguntas sobre o histórico do paciente, decidir quais exames solicitar, interpretar os resultados e revisar as hipóteses de diagnóstico conforme novas informações são disponibilizadas.
A proposta é aproximar o funcionamento da inteligência artificial do processo de investigação realizado por médicos, que precisam reunir evidências antes de identificar uma doença. O sistema também considera os custos dos exames ao avaliar quais procedimentos podem contribuir para chegar ao diagnóstico.
Em um segundo teste, baseado em 325 registros de atendimentos de emergência nos Estados Unidos, o MAI-DxO alcançou aproximadamente 80% de precisão. A média dos médicos utilizada na comparação foi de cerca de 47%.
Os resultados indicam que sistemas de IA podem contribuir para a análise de casos difíceis e para a escolha de exames. No entanto, a precisão diagnóstica é apenas um dos fatores envolvidos no atendimento: segurança do paciente, interpretação de informações incompletas, definição do tratamento e acompanhamento clínico também são fundamentais.
Limites da tecnologia
A comparação exige cautela porque os médicos avaliados eram profissionais generalistas, e não especialistas selecionados de acordo com cada doença analisada. Casos clínicos particularmente complexos podem ser encaminhados a especialistas ou discutidos por equipes multidisciplinares, cujo desempenho não foi estabelecido pelo experimento.
Além disso, o teste não reproduziu integralmente as condições de um hospital. Na prática, médicos precisam lidar com pacientes que podem esquecer informações, descrever sintomas de forma imprecisa ou apresentar sinais que não aparecem em registros escritos.
O estudo também não demonstrou que o uso do MAI-DxO melhore os resultados dos tratamentos ou reduza riscos para pacientes em situações reais. A pesquisa foi conduzida por profissionais ligados à Microsoft, empresa que desenvolve e comercializa tecnologias de inteligência artificial, um vínculo relevante para a avaliação independente dos resultados.
O próximo passo anunciado pela empresa é testar a ferramenta em ambientes clínicos reais, em colaboração com o Beth Israel Deaconess Medical Center, hospital de Boston, nos Estados Unidos. Uma das aplicações previstas é auxiliar na triagem de pacientes que chegam aos serviços de emergência.