EUA negociam com ditadura de Mianmar para tirar terras-raras das mãos da China

Conversas com governo militar isolado podem abrir caminho para acesso a minerais estratégicos controlados por grupos armados. Disputa envolve tecnologias usadas em carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares

Os Estados Unidos retomaram conversas diplomáticas com autoridades ligadas à junta militar de Mianmar em meio ao interesse americano pelas reservas de terras-raras do país asiático. A aproximação representa uma possível mudança na política de Washington, que rompeu relações com os generais após o golpe de Estado de 2021. O objetivo estratégico é reduzir a dependência americana da China, que domina etapas fundamentais da cadeia mundial desses minerais. As informações são da Reuters.

Segundo a reportagem, representantes dos dois lados participaram de uma nova rodada de conversas em Tóquio, no Japão. Foi o segundo encontro em aproximadamente um mês, depois de uma reunião realizada em setembro na capital de Mianmar, Naipidau.

Região de Hpakant, no estado de Kachin, em Mianmar, onde são extraídos jade e ouro (Foto: WikiCommons)

O conteúdo integral das conversas mais recentes não foi divulgado. As negociações anteriores envolveram a libertação de um empresário americano e o combate a centros de golpes digitais que prejudicam cidadãos dos Estados Unidos. O acesso às reservas de terras-raras também aparece entre os interesses estratégicos discutidos por Washington.

A aproximação ocorre apesar das sanções americanas contra integrantes da cúpula militar de Mianmar, incluindo o líder do golpe, Min Aung Hlaing. A repressão política, as violações de direitos humanos e a guerra civil que se intensificou após a tomada do poder, em fevereiro de 2021, mantêm o governo militar sob pressão internacional.

Minas em meio à guerra civil

O interesse americano esbarra em uma dificuldade que vai além da diplomacia. Parte importante das reservas de terras-raras pesadas de Mianmar está no estado de Kachin, no norte do país, em áreas controladas por grupos armados que combatem as forças militares.

Entre esses grupos está o Exército da Independência de Kachin (KIA), que conquistou posições estratégicas na região e passou a exercer influência sobre áreas de mineração. A disputa territorial interfere diretamente no fornecimento dos minerais à China.

Em reportagem publicada em março de 2025, a Reuters detalhou como os avanços dos rebeldes afetaram o comércio de terras-raras. A interrupção das operações em áreas mineradoras provocou uma queda nas importações chinesas provenientes de Mianmar e aumentou a incerteza sobre o abastecimento de elementos utilizados em tecnologias industriais.

O cenário cria um problema para Washington: negociar com a junta militar não garante acesso às jazidas se o governo não controlar os territórios onde elas estão localizadas. Um eventual acordo também precisaria considerar os grupos armados que exercem poder sobre as minas e as rotas de transporte.

Em julho de 2025, a Reuters já havia revelado propostas discutidas nos Estados Unidos para redirecionar parte do fornecimento de terras-raras de Mianmar para longe da China. Uma das alternativas envolvia negociar com a junta para tentar viabilizar um acordo de paz com os rebeldes de Kachin; outra previa uma aproximação direta com os insurgentes. Na ocasião, nenhuma decisão havia sido tomada, conforme a reportagem publicada pelo Japan Times.

A retomada das conversas em 2026 indica que Washington continua buscando alternativas para ampliar seu acesso aos minerais. Ainda não está claro, porém, se as negociações resultarão em contratos, investimentos ou mudanças efetivas no fluxo de exportações.

O que o Brasil tem a ver com isso

A disputa também interessa ao Brasil, que possui grandes reservas de terras-raras e busca desenvolver uma cadeia industrial capaz de atender à demanda por esses materiais. A mesma concentração produtiva que preocupa Washington representa uma oportunidade para países que pretendem ampliar sua participação no mercado.

Em junho de 2024, A Referência publicou uma reportagem sobre os esforços brasileiros para disputar espaço com a China no setor. O texto abordou as reservas nacionais, o potencial de expansão da mineração e os obstáculos para desenvolver a capacidade de processamento. A matéria está disponível em Brasil adere à disputa contra a hegemonia da China na exploração de terras-raras.

Um exemplo é a mina Serra Verde, em Goiás, que iniciou a produção comercial de terras-raras em 2024. O empreendimento chamou a atenção de investidores ocidentais interessados em diversificar o fornecimento global. No entanto, o desenvolvimento da produção brasileira não elimina automaticamente a dependência de empresas chinesas para etapas posteriores da cadeia produtiva.

Em maio de 2025, A Referência abordou essa contradição na reportagem China controla extração de terras-raras em mina brasileira financiada pelo Ocidente, aponta artigo. O texto mostrou como investimentos de origem americana e britânica na Serra Verde conviviam com a destinação da produção a compradores chineses.

O desafio brasileiro, portanto, não se resume a extrair mais minério. Para aproveitar a reorganização das cadeias internacionais, o país precisa ampliar sua capacidade de separação, refino e fabricação de componentes industriais, agregando valor aos recursos antes de exportá-los.

A disputa entre Estados Unidos e China ajuda a explicar por que essas etapas ganharam importância estratégica. Países capazes de fornecer minerais e transformá-los em insumos industriais podem atrair investimentos e ampliar sua influência econômica. Para o Brasil, isso abre oportunidades, mas também expõe o risco de continuar exportando recursos naturais sem controlar as etapas mais sofisticadas da produção.

No caso de Mianmar, a questão é ainda mais complexa: além da dependência tecnológica, o acesso às reservas está condicionado a uma guerra civil e à influência de grupos armados. O interesse americano mostra que a disputa por terras-raras deixou de ser apenas uma questão de comércio e passou a envolver diplomacia, segurança nacional e controle territorial.

O que são terras-raras

As terras-raras são um grupo de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de produtos de alta tecnologia. Apesar do nome, não são necessariamente escassas na natureza. O desafio está em encontrar depósitos economicamente viáveis e dominar os processos industriais necessários para separar, refinar e transformar esses elementos em materiais utilizáveis.

Esses minerais são empregados em ímãs permanentes de alto desempenho, fundamentais para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos. Também têm aplicações em sistemas de orientação, sensores e outros componentes militares.

China é líder global na produção e controle de metais de terras raras, que desempenham papel crucial em tecnologias de ponta, como eletrônicos e energias renováveis (Foto: Terence Wright/Flickr)

O problema para os Estados Unidos é a concentração da cadeia produtiva na China. Beijing não apenas ocupa uma posição dominante na extração de terras-raras, mas também controla grande parte do processamento e da fabricação dos ímãs utilizados pela indústria mundial.

Essa capacidade transforma os minerais em instrumentos de pressão econômica e política. Restrições chinesas às exportações podem afetar fabricantes estrangeiros, inclusive em setores considerados estratégicos para a segurança nacional americana.

A preocupação não é nova. Em janeiro de 2024, o próprio governo dos Estados Unidos publicou um alerta sobre a cadeia de fornecimento de minerais de Mianmar. O documento identificou riscos ambientais, trabalhistas e de rastreabilidade na extração desses materiais, além de apontar o papel de milícias ligadas ao regime militar no comércio destinado principalmente à China.

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