O incêndio do petroleiro Aframax Rio, atingido por um ataque de drones perto de Sochi, no litoral russo do Mar Negro, em 6 de outubro, expôs os riscos ambientais e estratégicos associados ao transporte de petróleo durante a guerra da Ucrânia. A embarcação, que navega sob bandeira da Libéria, está sob sanções ucranianas e é apontada por veículos de imprensa como provável integrante da chamada frota-sombra russa, uma rede de navios utilizada para manter as exportações de petróleo de Moscou apesar das restrições internacionais.
A ligação com essa rede foi relatada pelo veículo investigativo The Insider, com base em dados da empresa de inteligência marítima Starboard Maritime Intelligence. Segundo a publicação, o Aframax Rio pertence à empresa Rio Enterprises SA, registrada nas Ilhas Marshall, e já havia passado por portos russos no Mar Negro. A agência ucraniana Ukrinform também informou que o navio foi incluído na lista de sanções de Kiev em fevereiro de 2026, junto com outras 90 embarcações classificadas como integrantes da frota-sombra.

As fontes, porém, fazem uma distinção importante: o The Insider descreveu o Aframax Rio como provável integrante dessa rede, e não como um caso comprovado por todas as autoridades internacionais. Na data da reportagem, o navio não constava nas listas de sanções dos Estados Unidos e do Reino Unido. A bandeira liberiana tampouco comprova, por si só, a origem do petróleo transportado.
Como funciona a frota-sombra
A expressão frota-sombra designa uma rede de petroleiros utilizada para transportar petróleo russo em operações destinadas a contornar ou reduzir os efeitos das sanções internacionais. As embarcações podem operar por meio de estruturas empresariais pouco transparentes, registros em países terceiros e intermediários comerciais que dificultam a identificação dos responsáveis e a fiscalização das cargas.
A rede ganhou importância após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido e outros governos adotaram medidas para restringir as receitas russas com petróleo, incluindo sanções a empresas e embarcações e mecanismos destinados a limitar os preços de venda do produto.
A frota-sombra permite que parte dessas exportações continue chegando a compradores internacionais. China e Índia estão entre os mercados relevantes para o petróleo russo, embora os trajetos, os operadores e os mecanismos comerciais variem de uma embarcação para outra.
Em reportagem publicada em fevereiro de 2025, A Referência explicou como as sanções contra a frota-sombra dificultam as exportações russas e elevam os custos operacionais do transporte de petróleo. O texto também detalha as dificuldades enfrentadas pelos navios para manter registros, seguros e acesso aos portos internacionais.
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Mancha de óleo chegou a 25 km²
O incêndio do Aframax Rio também provocou preocupação ambiental. Em análise divulgada em 9 de outubro, o Greenpeace identificou, por meio de imagens de satélite, uma mancha de produtos derivados de petróleo que cresceu de aproximadamente oito para 25 quilômetros quadrados entre os dias 7 e 8 daquele mês.
A organização alertou que ainda havia risco de um derramamento maior caso a estrutura do navio estivesse comprometida e a carga de petróleo tivesse sido atingida. Naquele momento, não havia informações suficientes para determinar a quantidade exata de óleo liberada no mar.
O The Insider, ao repercutir a análise do Greenpeace, informou que a origem do incêndio poderia estar relacionada à queima de combustível utilizado pelo próprio navio, e não necessariamente à carga transportada. Isso não eliminava o risco ambiental: produtos derivados de petróleo na superfície podem afetar organismos marinhos e aves, enquanto resíduos mais pesados podem se depositar no fundo do mar.
O episódio reacendeu as lembranças do desastre de dezembro de 2024, quando dois petroleiros russos foram danificados durante uma tempestade no estreito de Kerch e liberaram mais de 9 mil toneladas de óleo combustível pesado, conhecido como mazute. A contaminação atingiu praias e áreas costeiras, especialmente nas proximidades de Anapa, no território russo de Krasnodar.
Duas semanas após o incêndio do Aframax Rio, moradores ainda relatavam a presença de aves cobertas de óleo e sinais de poluição em diferentes pontos do litoral. As autoridades russas reconheceram a existência de pequenos derramamentos perto de Novorossiysk, mas negaram que estivessem relacionados ao navio.
O The Moscow Times detalhou a divergência entre os relatos de moradores, as avaliações ambientais independentes e as informações divulgadas pelas autoridades russas. A publicação também destacou que, embora o impacto aparente fosse menor que o do desastre de 2024, a dimensão definitiva dos danos ainda não estava estabelecida.