Europa terá de se preparar para um mundo 3°C mais quente, alerta União Europeia

A Comissão Europeia quer definir responsabilidades pela prevenção de desastres climáticos diante da projeção de aquecimento global de até 3°C até 2100. A falta de recursos para proteger a população é um dos principais desafios

A União Europeia (UE) quer preparar seus 27 países-membros para um cenário de aquecimento global de até 3°C até 2100. O alerta foi feito na terça (27) pelo comissário europeu para a Ação Climática, Wopke Hoekstra, quando a Comissão Europeia anunciou novas regras para organizar a resposta a eventos climáticos extremos. As informações são do Euronews.

A proposta exige que os governos definam quais autoridades serão responsáveis pela proteção da população diante de enchentes, incêndios florestais, ondas de calor e outros desastres. Os países poderão distribuir as atribuições entre governos nacionais, regionais e municipais, mas terão de estabelecer claramente quem responde pela preparação e pela prevenção.

As usinas de combustíveis fósseis são um dos maiores emissores de gases de efeito estufa que causam mudanças climáticas (Unsplash/Marcin Jozwiak)

De acordo com Hoekstra, o mundo caminha para ultrapassar temporariamente — ou por um período mais prolongado — o limite de aquecimento de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris. Mesmo que os países consigam reduzir as emissões de gases de efeito estufa, os impactos climáticos deverão se intensificar nas próximas décadas.

Segundo o comissário, os prejuízos econômicos provocados pelos eventos climáticos extremos registrados no verão europeu de 2026 superaram 100 bilhões de euros. A estimativa considera os danos causados por fenômenos como incêndios e inundações, além dos custos de recuperação.

A iniciativa representa uma mudança de foco na política climática europeia: além de reduzir as emissões, os governos precisam adaptar cidades, sistemas de transporte, edifícios e serviços públicos a condições ambientais mais severas.

Europa aquece mais rápido

As projeções utilizadas pela Comissão Europeia consideram um aquecimento global de aproximadamente 2°C até 2050 e de 3°C até 2100. A Europa preocupa os especialistas porque o continente está aquecendo cerca de duas vezes mais rápido do que a média mundial.

Esses números representam um cenário de referência para o planejamento de políticas públicas, e não a certeza de que o planeta atingirá exatamente essas temperaturas. A trajetória dependerá da evolução das emissões, das medidas adotadas pelos governos e da capacidade internacional de conter o aquecimento.

Na prática, um mundo mais quente exigirá mudanças no planejamento urbano e na infraestrutura. Cidades precisarão desenvolver estratégias para enfrentar períodos prolongados de calor, enquanto estradas, pontes, bairros e edifícios terão de ser projetados considerando condições climáticas futuras, em vez de depender exclusivamente dos padrões históricos.

Região afetada pela seca e o calor (Foto: Wolfgang Hasselmann/Unsplash)

O desafio envolve também a capacidade de resposta dos serviços de emergência e a proteção das populações mais vulneráveis. Ondas de calor, secas, incêndios e enchentes podem provocar mortes, deslocamentos populacionais, perdas agrícolas e interrupções nas atividades econômicas.

Para a União Europeia, antecipar os riscos pode reduzir os custos de reconstrução e evitar que os governos precisem improvisar medidas depois de cada desastre.

Adaptação climática x falta de financiamento

Apesar da urgência do alerta, a estratégia europeia não prevê novos recursos específicos para ajudar as famílias a adaptar suas casas às mudanças climáticas. O financiamento é um dos principais pontos de fragilidade da iniciativa, sobretudo para os grupos de menor renda, que têm menos condições de arcar com reformas e medidas de proteção.

A Comissão Europeia aponta duas fontes de recursos já previstas: a proposta de destinar 35% do orçamento do bloco ao clima e à natureza e os 30 bilhões de euros em financiamentos do Banco Europeu de Investimento para projetos de adaptação climática até 2030.

Esses mecanismos, porém, não equivalem a um programa de auxílio direto às famílias. A execução das medidas também dependerá das negociações sobre o próximo orçamento plurianual europeu, no qual os investimentos ambientais disputarão recursos com defesa, segurança, competitividade industrial e agricultura.

Outro problema é a cobertura dos seguros. Segundo um representante da Comissão Europeia ouvido pela reportagem, apenas cerca de 25% dos ativos expostos aos riscos climáticos estão segurados. Isso significa que governos, empresas e proprietários podem enfrentar perdas expressivas quando ocorrem desastres.

O que muda na política climática

O plano europeu evidencia um desafio que ultrapassa as fronteiras do continente: reduzir as emissões de gases de efeito estufa continua sendo necessário, mas os governos também precisam se preparar para impactos que já não podem ser completamente evitados no curto prazo.

A distinção é importante. Mitigação significa combater as causas do aquecimento global, principalmente por meio da redução das emissões. Adaptação envolve diminuir os danos provocados pelas mudanças climáticas, com medidas como sistemas de drenagem, proteção contra enchentes, planejamento urbano e infraestrutura resistente ao calor.

A União Europeia alega que pretende incorporar essa lógica às decisões de investimento público, evitando que novas obras sejam construídas sem considerar os riscos climáticos previstos para as próximas décadas.

O tema também ganha relevância diplomática às vésperas da COP31, conferência climática das Nações Unidas prevista para 9 a 20 de novembro de 2026, em Antalya, na Turquia. O encontro deverá reunir governos para discutir a implementação dos compromissos climáticos e ampliar os esforços de adaptação.

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