Somalilândia, território localizado no noroeste da Somália, tornou-se uma peça importante da disputa geopolítica no entorno do Mar Vermelho. Em 26 de dezembro de 2025, Israel reconheceu formalmente sua independência, tornando-se o primeiro país a fazê-lo desde que a região se separou da Somália, em 1991. A decisão ampliou as tensões com o governo somali e abriu espaço para uma aproximação diplomática e militar entre Israel e as autoridades locais.
O interesse israelense está relacionado, sobretudo, à posição geográfica do território. Somalilândia possui uma extensa costa no Golfo de Áden, diante do Iêmen, e abriga o porto de Berbera. A região fica próxima ao estreito de Bab el-Mandeb, passagem marítima que conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e, por meio do Canal de Suez, ao Mediterrâneo.
Essa rota é fundamental para o transporte internacional de mercadorias e energia. Desde o início dos ataques dos houthis do Iêmen contra embarcações comerciais, em 2023, a segurança da navegação se tornou uma preocupação para Israel e para as potências que dependem do corredor marítimo. Uma presença estratégica em Somalilândia poderia ampliar a capacidade israelense de acompanhar as atividades dos houthis e os movimentos na região.

Portos e bases militares
A aproximação entre Israel e Somalilândia também ocorre em meio à expansão da presença estrangeira no litoral africano. Os Emirados Árabes Unidos, por meio da empresa DP World, administram o porto de Berbera e investiram em infraestrutura para ampliar sua capacidade comercial. O local também é importante para a Etiópia, país sem litoral que procura alternativas para reduzir sua dependência dos portos de Djibuti.
Em junho de 2026, o ministro da Defesa de Somaliland afirmou à Reuters que Israel estava treinando forças policiais e militares do território, mas negou a existência de uma base militar israelense e disse que não havia negociações para sua instalação. Posteriormente, uma investigação do jornal francês Le Monde apontou obras em instalações do aeroporto de Berbera que poderiam estar relacionadas a uma estrutura militar destinada a atender interesses dos Emirados, dos Estados Unidos e de Israel. A finalidade exata das instalações e quais forças poderiam utilizá-las, porém, não foram confirmadas publicamente.
O presidente da Somália, Hassan Sheikh Mohamud, afirmou em outubro que Israel pretendia estabelecer uma base naval em Berbera e utilizar o aeroporto local. A declaração reflete a preocupação de Mogadíscio com a aproximação entre Israel e as autoridades separatistas, mas não constitui, por si só, prova de que exista um acordo para instalar a base.
A disputa pela independência
Somalilândia declarou independência em 1991, após o colapso do Estado somali e anos de conflito. Desde então, mantém governo, forças de segurança e instituições próprias, embora a Somália continue considerando o território parte de seu território nacional.
O reconhecimento israelense representa uma conquista diplomática para as autoridades de Somalilândia, que buscam ampliar suas relações internacionais e atrair investimentos. Em contrapartida, a decisão provocou críticas do governo somali e de outros atores regionais, preocupados com os efeitos sobre a soberania nacional e a estabilidade do Chifre da África.
A questão também envolve interesses de outras potências. A Turquia mantém estreita cooperação militar e econômica com a Somália, enquanto os Emirados Árabes Unidos possuem investimentos estratégicos em Berbera. A Etiópia, por sua vez, já negociou com Somaliland o acesso à costa em troca de um possível reconhecimento diplomático, iniciativa que provocou uma crise com Mogadíscio.
A disputa se insere em uma competição mais ampla por portos, corredores comerciais e posições militares no entorno do Mar Vermelho, tema analisado por A Referência na reportagem Por que os portos da África estão no centro da disputa pelo Mar Vermelho.
O reconhecimento de Somalilândia não significa, por si só, que Israel conseguirá estabelecer uma base militar ou controlar o acesso à rota marítima. A aproximação, contudo, cria novas possibilidades de cooperação em inteligência e segurança, ao mesmo tempo que aumenta o risco de o território ser envolvido nas rivalidades entre Israel, os houthis e as potências que disputam influência no Chifre da África.