Do chão de fábrica à alta tecnologia: a revolução do Made in China

Exportações chinesas de automóveis cresceram 1.871% em valor desde 2015, enquanto o país amplia sua presença em robótica industrial, produtos químicos e equipamentos para inteligência artificial

A China está mudando o perfil de suas exportações e avançando sobre setores industriais que durante décadas foram dominados por Estados Unidos, Alemanha, Japão e outras economias desenvolvidas. Além de roupas, brinquedos e eletrônicos de baixo custo, o país asiático passou a disputar mercados de automóveis, robôs industriais, máquinas, produtos químicos sofisticados e componentes utilizados na infraestrutura de inteligência artificial (IA). As informações são da Reuters.

A reportagem mostra como essa transformação alterou a posição chinesa no comércio internacional ao longo da última década. O avanço resulta de uma estratégia industrial apoiada pelo Estado, da expansão da capacidade produtiva e do desenvolvimento de tecnologias que permitem às empresas chinesas competir em segmentos de maior valor agregado.

A mudança também aumenta a pressão sobre fabricantes ocidentais. Enquanto consumidores encontram produtos chineses mais baratos, empresas dos Estados Unidos e da Europa enfrentam dificuldades para competir em preço e escala. O resultado é uma disputa que envolve empregos industriais, políticas de proteção comercial e o controle de cadeias produtivas estratégicas.

Ilustração de um aspirador robótico de última geração, com sensores inteligentes e pernas articuladas capazes de superar desníveis (Imagem gerada por inteligência artificial)
Carros lideram expansão

O setor automotivo é um dos exemplos mais evidentes dessa transformação. Segundo os dados compilados pela Reuters, o valor das exportações chinesas de automóveis aumentou 1.871% entre 2015 e 2025, com aceleração a partir de 2020.

A expansão ajudou a transformar a China em uma das principais potências mundiais do comércio de veículos. Fabricantes locais, incluindo empresas especializadas em carros elétricos, conquistaram mercados internacionais com preços competitivos e avanços tecnológicos em baterias e sistemas eletrônicos.

A concorrência já provoca reações na Europa e nos Estados Unidos, que adotaram barreiras comerciais para proteger suas montadoras. O receio é que a entrada de veículos chineses, frequentemente vendidos por preços inferiores aos dos concorrentes locais, reduza a participação das empresas tradicionais e provoque perdas de empregos industriais.

A disputa também envolve fabricantes ocidentais que passaram a utilizar fábricas instaladas na China para produzir veículos destinados a outros mercados. A Referência abordou essa mudança na reportagem O plano das montadoras europeias que pode transformar a China na nova Detroit, que mostra como grupos internacionais ampliam a produção no país asiático para aproveitar seus custos e sua infraestrutura industrial.

Robôs e máquinas

A transformação não se limita aos automóveis. A China também está avançando na produção de máquinas e equipamentos utilizados na própria fabricação industrial.

De acordo com a reportagem, as exportações chinesas de robôs industriais cresceram mais de 300% desde 2015. O país também ultrapassou a Alemanha como maior exportador mundial de máquinas-ferramenta, utilizadas na fabricação de peças e produtos industriais.

O movimento cria uma vantagem adicional para a indústria chinesa. Além de produzir mercadorias destinadas ao consumidor final, o país fornece equipamentos necessários para que outras economias construam e modernizem suas fábricas.

Isso significa que empresas estrangeiras podem enfrentar dificuldades para competir com produtos chineses e, ao mesmo tempo, depender de máquinas e componentes fabricados na China para manter suas próprias linhas de produção.

A participação europeia na demanda mundial por bens de capital caiu de 54% em 2005 para 43%, enquanto a fatia chinesa aumentou de 7% para 24%, segundo estimativas do Goldman Sachs.

Disputa pela IA

A infraestrutura necessária para o desenvolvimento da inteligência artificial representa outra frente de expansão chinesa.

Embora os Estados Unidos mantenham posições importantes na criação de chips avançados e no desenvolvimento de modelos de IA, a China fornece diversos componentes físicos necessários para construir e operar centros de processamento de dados.

Entre eles estão transformadores elétricos, cabos, placas de controle, componentes de servidores e determinados tipos de semicondutores. Esses equipamentos são fundamentais para a distribuição de energia, a conexão dos sistemas e o funcionamento das instalações que processam grandes volumes de informações.

Segundo a Reuters, os embarques chineses de semicondutores quase dobraram no primeiro semestre de 2026, alcançando US$ 177,28 bilhões. As exportações de computadores e servidores cresceram 41,3% no mesmo período.

A expansão demonstra que a disputa tecnológica entre Washington e Beijing não se resume aos chips mais sofisticados. Ela também envolve a fabricação dos equipamentos, componentes elétricos e sistemas necessários para sustentar a infraestrutura digital.

Superprodução

O avanço chinês também alcança produtos químicos e plásticos utilizados em automóveis, construção civil, eletrônicos e bens de consumo.

A Reuters informa que empresas chinesas do setor químico receberam aproximadamente US$ 75 bilhões em subsídios ao longo da década analisada, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os repasses atingiram cerca de US$ 15 bilhões em 2023.

A expansão da capacidade produtiva, porém, também gerou excesso de oferta em determinados segmentos. Cerca de 5 mil empresas químicas foram criadas na China entre 2018 e 2023, segundo dados chineses citados pela agência.

Com a produção superando a demanda em alguns mercados, fabricantes passaram a buscar compradores no exterior. A oferta abundante pressiona os preços e aumenta a concorrência com empresas estabelecidas na Europa, nos Estados Unidos, no Japão e em outras economias industrializadas.

Esse modelo está relacionado a um problema mais amplo da economia chinesa: a dificuldade de equilibrar a capacidade industrial com o consumo doméstico. Quando as famílias não absorvem toda a produção, as exportações tornam-se ainda mais importantes para sustentar o crescimento das empresas.

A Referência analisou uma das causas estruturais desse desequilíbrio na reportagem A China esqueceu Karl Marx? Baixos salários sustentam o crescimento econômico, que aborda a relação entre remuneração dos trabalhadores, consumo interno e expansão da manufatura.

Eletrodomésticos e novos mercados

A expansão chinesa também alcança produtos domésticos que incorporam tecnologias mais sofisticadas. Aspiradores de pó e cortadores de grama motorizados estão entre os segmentos nos quais o país ampliou sua participação nas exportações mundiais.

Segundo a Reuters, a China lidera as exportações globais de aspiradores de pó e cortadores de grama motorizados em valor. Parte dos fabricantes utiliza tecnologias desenvolvidas para outros setores, incluindo sistemas de posicionamento por satélite, inteligência artificial e análise de dados.

Os cortadores de grama robóticos, por exemplo, podem aproveitar tecnologias semelhantes às utilizadas em sistemas de assistência à condução de veículos elétricos para mapear terrenos e delimitar áreas de operação.

A estratégia permite que empresas chinesas aproveitem investimentos tecnológicos realizados em setores maiores, como o automotivo, para desenvolver produtos destinados a novos mercados.

Protecionismo

O avanço das exportações chinesas aumenta a pressão por medidas protecionistas nas economias concorrentes. Tarifas, investigações comerciais e restrições às importações passaram a integrar a resposta de governos preocupados com a perda de participação de suas indústrias.

O desafio para essas economias é reduzir a dependência de fornecedores chineses sem elevar excessivamente os custos de produção e consumo. Em determinados segmentos, substituir os produtos chineses exige investimentos, tempo e a construção de cadeias de fornecimento alternativas.

A disputa também envolve países emergentes, que podem se beneficiar da importação de máquinas, veículos e equipamentos mais baratos, mas enfrentam dificuldades quando a concorrência externa ameaça suas próprias indústrias.

No Brasil, a questão tem implicações diretas para a indústria e o comércio exterior. A Referência já abordou o problema na reportagem Importações chinesas desafiam a fragilizada indústria brasileira, que analisa como o avanço dos produtos asiáticos afeta setores manufatureiros nacionais.

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