ONU alerta para destruição de escolas, universidades e memória palestina em Gaza

Relatoras das Nações Unidas denunciam a destruição de instituições de ensino e do patrimônio cultural palestino. Segundo Farida Shaheed, 98% das escolas e as 13 universidades de Gaza foram destruídas

A destruição do sistema educacional, do patrimônio histórico e dos meios de comunicação palestinos está comprometendo a preservação da memória coletiva e o futuro das próximas gerações em Gaza. O alerta foi feito nesta quinta-feira (29) por duas relatoras especiais das Nações Unidas durante uma reunião do Comitê para o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestino, em Nova York. As informações são da Anadolu.

Farida Shaheed, relatora especial da ONU sobre o direito à educação, utilizou o termo escolasticídio para descrever a destruição sistemática das estruturas educacionais palestinas. Segundo ela, 98% das escolas e as 13 universidades de Gaza foram destruídas. A especialista também afirmou que quase 21 mil estudantes palestinos morreram durante a guerra.

A destruição das instituições de ensino vai além da interrupção das aulas. Para Shaheed, os ataques comprometem as bases da sociedade palestina, ameaçam sua identidade coletiva e apagam referências históricas e culturais transmitidas entre gerações.

Escola da UNRWA destruída em Beit Lahia, no norte de Gaza, em 17 de fevereiro de 2024 (Foto: Abedallah Alhaj/UNRWA)

Os efeitos da guerra sobre crianças e jovens também foram abordados em uma reportagem de A Referência sobre o risco de uma geração inteira perder oportunidades educacionais. O texto, ONU alerta para “geração perdida” em Gaza após dois anos sem aulas, contextualiza as consequências da interrupção prolongada do ensino para o desenvolvimento da população palestina.

Patrimônio destruído

Os danos apontados por Shaheed também atingem instituições e locais que preservam a história palestina. Segundo a relatora, 13 bibliotecas, arquivos centrais que guardavam 150 anos de registros históricos, 195 locais de patrimônio cultural, 227 mesquitas e pelo menos três igrejas foram destruídos ou atingidos.

A perda desses espaços ameaça a preservação de documentos, objetos e referências culturais que ajudam a reconstruir a trajetória da população palestina. A destruição de arquivos e bibliotecas também dificulta o acesso de pesquisadores e das próximas gerações a registros históricos.

Na Cisjordânia ocupada, a situação também preocupa as Nações Unidas. Shaheed afirmou que dez das 48 escolas de Jerusalém Oriental foram demolidas em setembro de 2026.

A relatora também mencionou restrições administrativas que dificultam o funcionamento de instituições de ensino. Segundo ela, algumas escolas foram obrigadas a fechar após não conseguirem licenças, em processos nos quais podem ser exigidas mudanças curriculares que eliminem referências à história e à cultura palestinas.

No primeiro semestre de 2026, foram registrados 224 incidentes de segurança que afetaram 152 escolas, 20.450 estudantes e pelo menos 859 profissionais da educação, de acordo com os números apresentados por Shaheed. A violência de colonos israelenses também teria provocado o deslocamento de pelo menos 1.700 crianças, afastando-as da escola.

Jornalistas mortos

A destruição da infraestrutura educacional ocorre em paralelo às mortes de profissionais responsáveis por documentar o conflito. Francesca Albanese, relatora especial da ONU para a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados desde 1967, afirmou que quase 300 jornalistas e trabalhadores da mídia foram mortos por Israel em Gaza desde outubro de 2023.

Albanese participou virtualmente da reunião e apresentou preocupações relacionadas ao papel da imprensa em seu relatório mais recente. Segundo ela, silenciar testemunhas não apenas impede o registro de crimes, mas também dificulta a responsabilização dos envolvidos.

A violência contra profissionais da imprensa também foi abordada em uma reportagem de A Referência sobre o levantamento da organização Repórteres Sem Fronteiras. O texto, Relatório aponta Israel como responsável por 43% das mortes de jornalistas no mundo em 2025, apresenta dados sobre a dimensão do problema e o impacto da guerra sobre o exercício do jornalismo.

Albanese afirmou ainda que mais de 74.500 palestinos morreram em Gaza. Ela contestou a ideia de que o cessar-fogo anunciado no ano anterior tenha proporcionado alívio à população e declarou que mais de 1.500 palestinos foram mortos desde o anúncio da trégua.

A relatora também citou o deslocamento forçado de palestinos na região de Hebron, na Cisjordânia, após declarações do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sobre a destruição de um bairro de pessoas apontadas como responsáveis por ataques a um posto de controle em 23 de outubro.

Apelo internacional

Durante a reunião, Albanese pediu que os governos adotem medidas para interromper o fornecimento de armas e as relações comerciais que, segundo ela, sustentam a ocupação ilegal e o genocídio. Também defendeu o financiamento e a proteção da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), além de medidas para proteger jornalistas.

As denúncias se somam a outras discussões sobre possíveis violações do direito internacional durante a guerra. A Referência já abordou o tema na reportagem Entidades humanitárias e ONU sugerem que Israel comete crimes de guerra em Gaza, que contextualiza as acusações relacionadas à condução das operações militares e aos impactos sobre a população civil.

Albanese argumentou que a crise em Gaza representa um teste para a capacidade de ação das Nações Unidas e de seus países-membros. Para ela, a questão não se limita à existência de instrumentos internacionais, mas envolve a disposição política dos governos para utilizá-los.

A discussão sobre a responsabilização também aparece em Chefe de Direitos Humanos da ONU exige responsabilização por atrocidades em Gaza, reportagem de A Referência sobre as cobranças internacionais diante das denúncias de violações de direitos humanos.

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