A capacidade militar da Ucrânia depende de uma tecnologia controlada por um dos empresários mais poderosos do mundo. Interrupções recentes na rede de internet via satélite Starlink, de Elon Musk, prejudicaram operações militares ucranianas e reacenderam o debate sobre os riscos de entregar a uma empresa privada uma infraestrutura essencial para a defesa de um país em guerra. As informações são do The Atlantic.
Segundo reportagem, uma interrupção no serviço afetou operações com drones e outras atividades militares. Em um dos episódios relatados, drones navais ucranianos foram perdidos no Mar Negro. A publicação ouviu autoridades, militares e especialistas que descreveram a dependência de Kiev em relação à rede de satélites.

O episódio ocorreu em meio à deterioração das relações entre o governo ucraniano e a administração do presidente Donald Trump. Musk afirmou que a Starlink não deveria ser utilizada para ataques militares e declarou que sua empresa havia fechado uma brecha que permitia esse tipo de uso.
Embora o serviço tenha sido restabelecido, a possibilidade de novas restrições mantém a preocupação entre autoridades ucranianas. O problema não é apenas a disponibilidade de conexão à internet, mas a capacidade de manter comunicações militares em tempo real, coordenar operações e controlar equipamentos remotamente.
Como a Starlink se tornou essencial
A Starlink é operada pela SpaceX, empresa aeroespacial de Musk, e utiliza uma constelação de satélites em órbita baixa para fornecer acesso à internet. Diferentemente dos sistemas tradicionais, a rede permite conexões rápidas em regiões onde a infraestrutura terrestre foi destruída ou nunca existiu.
Após a invasão russa em fevereiro de 2022, a tecnologia ajudou a manter conectados órgãos públicos, hospitais e serviços essenciais da Ucrânia. As Forças Armadas também passaram a utilizar terminais para comunicações no campo de batalha e operações com drones.
Esses equipamentos permitem transmitir informações entre unidades militares e operadores, inclusive em áreas próximas à linha de frente. A conectividade é especialmente importante para drones que dependem de comunicação contínua para receber comandos e transmitir imagens.
A dependência, porém, criou uma vulnerabilidade. Ao controlar a infraestrutura, a SpaceX tem capacidade técnica para restringir o acesso à rede, enquanto a Ucrânia não dispõe de uma alternativa com alcance e escala equivalentes.
A situação também envolve diferenças entre dois serviços da empresa. A Starlink é voltada ao mercado comercial, enquanto a Starshield foi desenvolvida para aplicações governamentais e militares. Apesar disso, segundo a The Atlantic, a maior parte dos terminais utilizados pelas forças ucranianas é composta por equipamentos convencionais da Starlink, mais baratos e acessíveis.
Musk argumenta que o serviço comercial não deve ser utilizado para ataques ofensivos. A aplicação dessa restrição em uma guerra, entretanto, pode afetar operações que dependem da mesma infraestrutura para comunicações, reconhecimento e defesa.
Europa procura alternativas
O episódio acelerou a busca por alternativas europeias. A principal concorrente da Starlink é a OneWeb, rede operada pela empresa Eutelsat, com sede na França. Sua constelação, porém, é muito menor que a da empresa americana.
Segundo dados citados pela The Atlantic, a Starlink possui mais de 11 mil satélites, enquanto a OneWeb conta com pouco mais de 600. A diferença de escala dificulta uma substituição rápida, especialmente diante das exigências militares de cobertura, capacidade e confiabilidade.
Em outra iniciativa, empresas finlandesas como Nokia e ICEYE anunciaram um acordo para estudar comunicações via satélite soberanas para a Ucrânia. Os primeiros lançamentos previstos no projeto devem ocorrer em 2028, o que evidencia a distância entre os planos de diversificação e a necessidade imediata das forças ucranianas.
A União Europeia também trabalha na rede Iris², concebida para reduzir a dependência de fornecedores externos. A expectativa é que o sistema entre em operação a partir de 2029.
Existe, contudo, um obstáculo adicional: a própria Europa depende da SpaceX para lançar parte de seus satélites. Construir uma rede concorrente exige não apenas equipamentos em órbita, mas também capacidade de lançamento, infraestrutura terrestre e investimentos de longo prazo.
Rússia tenta reduzir a desvantagem
A vulnerabilidade ucraniana também interessa à Rússia. Moscou desenvolve o sistema de satélites Rassvet, destinado a ampliar sua capacidade de comunicação e disputar espaço em um mercado dominado pela Starlink.
Uma rede própria pode reduzir a dependência russa de fornecedores estrangeiros e ampliar as possibilidades de comunicação e controle de equipamentos militares. A evolução do projeto, entretanto, não significa que Moscou já disponha de uma estrutura equivalente à americana.
A diferença tecnológica entre os dois lados também está relacionada à capacidade de produção e lançamento de satélites. Nesse campo, a SpaceX mantém uma vantagem significativa, resultado de investimentos privados e de uma infraestrutura de lançamentos desenvolvida ao longo de anos.