A mineração ilegal de ouro está deixando marcas profundas na paisagem de Joanesburgo, na África do Sul. Túneis abandonados, escavações clandestinas, crateras e trechos de estradas destruídos expõem os efeitos de uma atividade que cresce impulsionada pelo preço do metal, pelo desemprego e pela presença de redes criminosas. Em meio ao problema, pesquisadores alertam que os garimpeiros clandestinos estão sendo responsabilizados por danos que também têm raízes na mineração industrial realizada ao longo de décadas. As informações são do The Guardian.
Conhecidos localmente como zama zamas, expressão em zulu que significa aproximadamente “arriscar a sorte”, os mineradores atuam em antigas minas desativadas e exploram depósitos de ouro que ainda permanecem no subsolo. Muitos trabalham em condições precárias, enquanto grupos armados controlam o acesso aos túneis e a comercialização do minério.

Em áreas próximas a Roodepoort, a oeste de Joanesburgo, a intensificação da atividade tem provocado impactos sobre comunidades e organizações locais. A reportagem do jornal britânico The Guardian, publicada em 30 de outubro, relata que garimpeiros passaram a utilizar a água armazenada por uma instituição de proteção animal para lavar e processar o ouro. A situação chegou ao ponto de comprometer o abastecimento dos animais resgatados pela entidade.
O problema não se limita ao consumo de água. Em Wemmer Pan Road, próximo ao bairro de Rosettenville, um trecho de uma antiga ligação viária entre o centro financeiro da cidade e os subúrbios do sudeste praticamente desapareceu. O terreno foi tomado por escavações e buracos abertos por mineradores clandestinos.
Milhares de minas abertas
A expansão do garimpo clandestino está diretamente relacionada ao legado da mineração sul-africana. Joanesburgo nasceu durante a corrida do ouro iniciada em 1884 e se transformou em um dos principais centros da indústria mundial do metal. A produção sul-africana atingiu seu auge na década de 1970, mas o país perdeu a posição de maior produtor mundial em 2007.
Mesmo com o fechamento de antigas operações, grandes quantidades de ouro permanecem no subsolo. A prefeitura de Joanesburgo estima que ainda existam cerca de 40 mil toneladas do metal na região. O problema é que parte significativa das estruturas subterrâneas foi abandonada sem o devido fechamento e recuperação ambiental.
Em resposta a uma consulta parlamentar em 2025, o ministro de Recursos Minerais, Gwede Mantashe, informou que o país tinha 6.100 minas abandonadas e sem responsáveis identificados, além de 1.170 entradas de minas consideradas inseguras.
As empresas mineradoras têm obrigação legal de fechar os poços e recuperar as áreas exploradas quando encerram suas atividades. O descumprimento dessa responsabilidade deixou um vasto conjunto de estruturas acessíveis a grupos que exploram ilegalmente os depósitos remanescentes.
Segundo pesquisadores ouvidos pelo The Guardian, a quantidade de garimpeiros clandestinos chega a dezenas de milhares em todo o país. Uma estimativa de 2019 da Global Initiative Against Transnational Organized Crime apontava que aproximadamente 10% da produção de ouro sul-africana era exportada ilegalmente, movimentando cerca de US$ 1 bilhão por ano.
Garimpeiros viram bodes expiatórios
A atribuição dos desabamentos e das crateras exclusivamente aos zama zamas é contestada por especialistas. A professora Rosalind Morris, da Universidade Columbia, afirma que a mineração industrial histórica tem participação central na instabilidade geológica da região.
O sul e o oeste de Joanesburgo possuem formações de rochas dolomíticas, que podem se tornar instáveis quando há retirada excessiva de água subterrânea. Durante décadas, grandes operações industriais removeram volumes expressivos de água para permitir a exploração mineral.
Segundo Morris, a mineração industrial é a principal responsável pelo surgimento de dolinas e afundamentos do terreno na África do Sul. Ela reconhece que escavações clandestinas também provocam colapsos em determinadas áreas, mas considera incorreto atribuir aos garimpeiros a origem de um problema que antecede a expansão recente da atividade ilegal.
A pesquisadora também questiona a responsabilização dos trabalhadores subterrâneos pela violência nas regiões de mineração. Segundo David van Wyk, pesquisador da Bench Marks Foundation, os conflitos estão principalmente relacionados às gangues armadas que controlam o acesso às minas e ficam com os lucros da comercialização do ouro.
Os trabalhadores que descem aos túneis, muitos deles estrangeiros vindos de países vizinhos como Lesoto, Moçambique e Zimbábue, frequentemente atuam como mão de obra explorada por essas organizações.
Operações policiais e mortes
O combate ao garimpo ilegal também produziu episódios de grande violência. Em Stilfontein, na província de Noroeste, 93 corpos foram retirados de uma mina em 2025, depois que uma operação policial impediu o fornecimento de alimentos e água aos trabalhadores que permaneciam no subsolo.
A polícia sul-africana anunciou em 19 de outubro a prisão de 71 suspeitos de mineração ilegal em diferentes partes do país durante a semana anterior. Apesar das operações, a dimensão econômica da atividade e a estrutura das redes criminosas dificultam a repressão.
Em algumas comunidades, o garimpo também representa uma fonte importante de renda. Na localidade de Khutsong, a cerca de 80 quilômetros a oeste de Joanesburgo, moradores relatam que a atividade movimenta o comércio e sustenta parte da economia local.
Organizações comunitárias defendem a criação de licenças para permitir a mineração artesanal regulamentada. A proposta busca diferenciar trabalhadores que extraem o ouro de forma independente das organizações criminosas que controlam os túneis e a distribuição do metal.
Mineração no centro da disputa eleitoral
A crise também ganhou dimensão política às vésperas das eleições municipais sul-africanas, marcadas para 4 de novembro. Em Joanesburgo, políticos passaram a utilizar os desabamentos e as escavações clandestinas como argumento para cobrar medidas de segurança e responsabilizar a administração municipal.
O vereador responsável pelos Transportes, Kenny Kunene, chegou a organizar visitas de jornalistas a áreas atingidas por crateras e atribuiu os danos à atuação dos garimpeiros ilegais.
O debate ocorre em um momento de desgaste do Congresso Nacional Africano (ANC), partido que governa o país desde o fim do apartheid, em 1994. Nas eleições nacionais de 2024, a legenda perdeu a maioria absoluta no Parlamento pela primeira vez, sendo obrigada a formar um governo de coalizão.
A situação de Joanesburgo é particularmente delicada. A cidade enfrenta problemas de infraestrutura, abastecimento de água, desemprego e instabilidade administrativa. A mineração ilegal acrescenta outra camada de complexidade a uma crise urbana que envolve responsabilidades históricas das empresas, falhas de fiscalização e redes criminosas.
De acordo com a Reuters, desemprego, criminalidade e falhas no fornecimento de serviços públicos estão entre as principais preocupações dos eleitores nas eleições municipais.