Covid-19 inflama tensões raciais na África do Sul

Brancos e negros usam as redes sociais para discutir os efeitos da pandemia no território sul-africano
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A pandemia do novo coronavírus não trouxe apenas desafios para a saúde pública na África do Sul, mas inflamou as seculares tensões raciais no país. As informações são da revista norte-americana Foreign Policy.

Em março, o presidente Cyril Ramaphosa impôs duras restrições para impedir a disseminação do coronavírus no território sul-africano. Entre as proibições estão passeios com animais de estimação.

Quando sul-africanos brancos reclamaram da medida, a população negra criticou a preocupação maior com os bichos do que com os compatriotas mais pobres.

Outros debates ganharam destaque no país durante a pandemia, sobretudo nas redes sociais. O negros acusam o governo de conceder tratamento especial aos brancos, que reclamam do contrário.

Ataques racistas também agravam as tensões. Em um dos casos, a ministra Nkosazana Dlamini-Zuma foi retratada como um macaco por usuários de redes sociais.

Covid-19 inflama tensões raciais na África do Sul
Crianças têm temperatura aferida antes de entrarem em ônibus escolar em Durban, na África do Sul (Foto: GCIS/Governo da África do Sul)

Desigualdade

As medidas impostas por Ramaphosa até agora têm sido consideradas por setores da opinião pública sul-africana como bem-sucedidas. Porém, especialistas apontam que o país ainda não passou pelo pico da doença.

Entre 60 milhões de habitantes, foram registrados 70 mil casos da doença e 1,4 mil mortos, de acordo com dados divulgados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) nesta segunda (15).

A Itália, por exemplo, tem uma população um pouco maior que a África do Sul, com 60,3 milhões de habitantes. Foi palco de uma das mais graves crises, com 236 mil casos confirmados e 34 mil mortes.

O problema é que, na África do Sul, medidas como a imposição do isolamento social destacam desigualdades socioeconômicas.

Enquanto a maioria dos brancos, e cada vez mais membros da classe média negra, vivem em casas espaçosas com jardim, as populações pobres e majoritariamente negras nas cidades têm mais dificuldade para cumprir com a determinação.

Muitas famílias pobres vivem em barracos de apenas um quarto, divindindo o espaço com vários familiares. Lavar as mãos regularmente é impossível para quem precisa caminhar até a torneira compartilhada mais próxima.

Entre a população mais pobre, quem não está desempregado precisa pegar transporte público superlotado para chegar ao emprego. Não há possibilidade de se trabalhar de casa.

Muito pobres ainda morreram ao consumir álcool feito em casa, após a proibição do governo da venda de bebidas alcóolicas. Além disso, a medida estimulou ainda o comércio ilegal de cigarros, com crianças vendendo o contrabando.

Já a repressão da polícia a quem quebrava as regras do governo atingiu sobretudo os pobres negros sul-africanos. Houve casos de brutalidade que acabaram sendo fatais, como o de Collins Khosa, agredido em sua própria casa enquanto bebia uma cerveja no quintal.

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