As tensões entre Etiópia e Eritreia voltaram ao centro das atenções após semanas de declarações hostis e movimentos políticos que reacenderam temores de um novo conflito no Chifre da África. A combinação de disputas históricas, ambições geopolíticas e feridas ainda abertas da guerra de Tigré elevou o nível de alerta na região. As informações são da Anadolu.
Para analistas, o cenário atual representa mais do que irritações pontuais: é um capítulo renovado de uma disputa por poder e influência entre dois dos países mais estratégicos do continente. Segundo o especialista em região, Michael Woldemariam, o que está em curso é “um confronto pela proeminência e hegemonia” em um dos tabuleiros mais sensíveis da África.

O passado ainda pesa
Eritreia e Etiópia compartilham décadas de conflitos, ocupações e tentativas frustradas de reconciliação. Após a anexação eritreia em 1952 e a guerra de independência que durou 30 anos, o breve período de cooperação entre os países desmoronou com a guerra de 1998–2000, que deixou dezenas de milhares de mortos e instaurou quase duas décadas de tensão congelada.
A assinatura do acordo de paz de 2018, que ajudou a garantir o Nobel da Paz ao primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed, parecia apontar para uma nova fase. Mas o avanço do conflito em Tigré reabriu feridas profundas, e expôs clivagens que nunca haviam sido totalmente curadas.
Durante a guerra em Tigré, tropas eritreias lutaram ao lado das forças federais etíopes. Quando Addis Abeba assinou, em 2022, um acordo direto com a Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF), sem a Eritreia, Asmara considerou o gesto uma traição.
Geopolítica e o Mar Vermelho entram no tabuleiro
Além das disputas internas, um elemento ganhou protagonismo na recente escalada: o acesso etíope ao Mar Vermelho. Desde que a Eritreia se tornou independente, a Etiópia, potência regional com quase 120 milhões de habitantes, perdeu seu litoral, tornando-se dependente de portos estrangeiros.
Em 2023, Abiy Ahmed declarou que o acesso ao mar era “uma questão existencial”, e declarou que o país poderia “usar a força” para romper sua condição de “prisão geográfica”. A fala gerou reações imediatas da Eritreia, cuja memória da anexação forçada segue como um componente profundo da identidade nacional.
A Etiópia buscou alternativas, como o acordo de 2024 com a Somalilândia para acesso ao porto de Berbera. Mas, segundo analistas, o interesse estratégico de Addis Abeba permanece voltado ao porto de Assab, em território eritreu.
Risco real de conflito
Apesar da crescente deterioração do discurso entre os governos, especialistas consideram que nenhum dos lados deseja, ou pode sustentar, uma guerra em larga escala neste momento. A presença de múltiplos atores armados no norte da Etiópia, incluindo forças regionais em Tigré, Amhara e Afar, torna qualquer escalada imprevisível.
“O caminho da guerra para ambos os lados é extremamente arriscado”, afirma Woldemariam, destacando que os resultados seriam “muito difíceis de prever”.
Mediação como única saída
A pressão internacional vem aumentando para que Etiópia e Eritreia retomem canais diplomáticos. Abiy pediu oficialmente mediação em outubro, e países como EUA, Egito, Emirados Árabes, Turquia e a União Africana são apontados como atores-chave para evitar um conflito maior.
Para Woldemariam, apenas uma mediação ampla, envolvendo potências ocidentais, países do Golfo e instituições africanas, teria chances reais de reduzir as tensões.
“A estabilidade do Chifre da África depende de uma atuação africana forte e coordenada”, afirma o especialista.
Por que isso importa?
A região de Tigré, no extremo norte da Etiópia, esteve imersa em conflitos por dois anos desde novembro de 2020, quando disputas eleitorais levaram Addis Abeba a determinar a tomada das instituições locais. A disputa apôs a TPLF às forças de segurança nacionais da Etiópia.
Os militares chegaram a reconquistar Tigré, mas os rebeldes viraram o jogo e começaram a ganhar território. No final de junho de 2021, eles anunciaram um processo de “limpeza” para retomar integralmente o controle da região e assumiram o comando de Mekelle.
Pouco após a derrota do Exército, o governo da Etiópia decretou um cessar-fogo e deixou Tigré. Os soldados do exército da aliada Eritreia também deixaram de ser vistos por lá. Posteriormente, com o avanço dos rebeldes, que chegaram às regiões vizinhas de Amhara e Afar, o exército foi enviado novamente para apoiar as tropas locais.
Durante o conflito, a TPLF se aliou ao OLA (Exército de Libertação Oromo, da sigla em inglês), que em 2020 se desvinculou do partido político homônimo e passou a defender de maneira independente a etnia Oromo, a maior da Etiópia.
A coalizão passou a superar o Exército nos confrontos armados e chegou a ameaçar rumar para a capital, sem sucesso. A situação estava relativamente calma em 2022 até agosto, quando nos confrontos eclodiram. Três meses depois, um cessar-fogo foi firmado, e os rebeldes começaram a depor suas armas.
Em março de 2023, um acordo levou ao estabelecimento de um governo interino regional, o que interrompeu definitivamente o conflito. A TPLF, que chegou a dominar o governo central etíope no passado, foi também retirada da lista de organizações terroristas do país, onde estava desde maio de 2021.
Acredita-se que dezenas de milhares de pessoas tenham morrido no conflito, com milhões de deslocados das regiões de Tigré, Amhara e Afar.